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Anthropic envia equipe técnica a Washington para tentar reativar Mythos 5 e Fable 5

Sala de reuniões na Casa Branca ao fim do dia, com três cadeiras de couro vazias em torno de mesa redonda com laptops fechados e crachá de assessor sobre a madeira.

CEO Dario Amodei já se reuniu com a chefe de gabinete Susie Wiles e o secretário do Tesouro Scott Bessent. Casa Branca classificou conversa como produtiva, mas modelos seguem fora do ar globalmente.

A Anthropic enviou parte de sua equipe técnica sênior a Washington para discutir com a Casa Branca a reativação do Claude Mythos 5 e do Claude Fable 5, fora do ar globalmente desde a noite de sexta-feira (12). A informação foi adiantada pela Axios no domingo (14) e a Casa Branca, em comunicado, classificou a primeira reunião como "produtiva e construtiva".


O encontro inicial colocou frente a frente o CEO Dario Amodei, a chefe de gabinete da presidência Susie Wiles e o secretário do Tesouro Scott Bessent. Segundo nota oficial divulgada pela Casa Branca, a pauta envolveu "oportunidades de colaboração em cibersegurança, segurança de IA e a liderança americana na corrida pela inteligência artificial". A reunião não envolveu o secretário de Comércio Howard Lutnick, que assinou a ordem de controle de exportação, nem o secretário de Defesa Pete Hegseth, com quem a Anthropic mantém disputa judicial aberta desde março.


A carta que tirou os modelos do ar


A diretiva de Lutnick chegou a Amodei na quinta-feira (11), às 17h21 do horário de Washington segundo a Axios. O documento submete Mythos 5 e Fable 5 ao regime de controle de exportação e exige licença para qualquer acesso por estrangeiros, dentro ou fora dos Estados Unidos. Como a Anthropic não consegue separar em tempo real usuários estrangeiros dos americanos em seu produto comercial, a empresa desligou os dois modelos no mundo inteiro por volta da meia-noite de sexta para sábado. Apenas o Claude Opus 4.8 e gerações anteriores seguem disponíveis.


A ordem foi precedida por um alerta da Amazon. Pesquisadores da AWS conseguiram, com uma sequência específica de prompts, extrair do Mythos informações restritas sobre técnicas de ataque cibernético. Andy Jassy, CEO da Amazon, levou as descobertas a oficiais sênior da administração na quinta-feira. A Anthropic sustenta publicamente que se trata de bypass estreito, baseado em pedir ao modelo a leitura de uma base de código específica, e não de jailbreak universal das proteções.


A janela comercial interrompida


O Fable 5 saiu em 9 de junho com oferta gratuita até 22 de junho para assinantes Pro, Max, Team e Enterprise. O Mythos 5, voltado a cibersegurança, vinha sendo distribuído desde 2 de junho a 150 organizações em mais de 15 países. A Anthropic anunciou reembolsos para quem pagou pelo acesso, sem divulgar o montante total. A receita anualizada da empresa chegou a US$ 47 bilhões em maio, segundo Daniela Amodei, presidente da empresa, em painel na Bloomberg Tech em 4 de junho.


A Salesforce, que confirmou em maio compromisso de gastar US$ 300 milhões em tokens da Anthropic apenas em 2026, perdeu acesso aos modelos mais novos do fornecedor. Marc Benioff, CEO da Salesforce, justificou o gasto no podcast All-In dizendo que "tudo vai ficar mais barato de fazer" graças ao uso de IA para coding. Para integradores como Capgemini, Infosys e CI&T, que vinham vendendo entregas baseadas em Claude a bancos europeus e brasileiros, a interrupção forçou disparar planos de contingência com Gemini e GPT no meio de sprints de implantação.


O Pentágono no fundo da disputa


A briga atual herda atrito anterior. Em 27 de fevereiro, Trump determinou que agências federais civis cessassem o uso da tecnologia da Anthropic. Em março, o Departamento de Defesa rotulou a empresa como risco de cadeia de suprimentos depois que ela se recusou a liberar seus modelos para uso em armas autônomas e vigilância doméstica. A Anthropic processou o governo no mesmo mês e obteve liminar parcial em corte federal da Califórnia, em decisão que ainda não foi revisada por instância superior. Era a primeira empresa americana a ganhar o rótulo, normalmente reservado a fornecedores ligados a China, Rússia e Irã.


Bessent foi escolhido como interlocutor pela Anthropic justamente por estar fora da linha dura do Pentágono. O secretário do Tesouro coordena a estratégia comercial mais ampla do governo e tem preocupação direta com o impacto da medida sobre a posição americana no mercado global de IA. Wiles, segundo a Axios, viu nas conversas oportunidade de evitar briga prolongada que serviria de munição à narrativa europeia e chinesa de que os EUA usam IA como arma comercial.


A conta para o comprador corporativo


Independentemente de como o impasse for resolvido, fica para CIOs e CISOs em qualquer mercado uma lição operacional: um modelo SaaS pode ser desligado por decisão executiva nos Estados Unidos sem aviso aos compradores estrangeiros. O contrato relevante não é mais só o do fornecedor, é o da jurisdição em que ele opera. Equipes de risco corporativo na Alemanha já citam a paralisação para sustentar exigências do BaFin sobre planos de saída de provedor de IA. Bancos no Japão e fintechs no Brasil que padronizaram fluxos críticos em Claude entram em revisão de arquitetura compulsória nas próximas semanas.

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