IA acorda o setor de seguros, e o retrato dividido nos cortes de 2026

Da Acrisure com 2.250 demitidos em maio ao plano de 1.000 posições da Munich Re Ergo até 2030, o setor de seguros mostra duas gramáticas de reestruturação com IA; a coalizão RAISE US é indício, não solução.
O anúncio do RAISE US em 25 de junho, uma coalizão que reuniu US$ 500 milhões de Amazon, Anthropic, Microsoft e a OpenAI Foundation para recolocar trabalhadores impactados por IA em quatro estados americanos, marcou o momento em que os laboratórios de fronteira admitem em uníssono uma tese que consultores e banqueiros já defendiam: parte relevante da força de trabalho será dispensada, e o custo político dessa dispensa precisa de sponsor. O detalhe é que a lista de âncoras inclui as próprias empresas cujos produtos aceleraram os cortes. Amazon, Microsoft e Anthropic aparecem entre os empregadores que atribuíram redução de vagas a ganhos de IA nos últimos doze meses.
Ler o RAISE US apenas como penitência mal disfarçada, porém, ignora um deslocamento maior. Os cortes de colarinho branco estão saindo dos dois setores mais visados até agora, consultoria e banco de investimento, e migrando com força para um terceiro andar do mercado corporativo: seguros. A série do The New Times que vinha reportando o efeito setor por setor precisa incorporar seguros com a mesma disciplina. E a evidência de 2026 mostra que o setor está longe de ser homogêneo.
Duas gramáticas do mesmo corte
Em 20 de maio, a Acrisure, oitava maior corretora de seguros do mundo por receita e avaliada em cerca de US$ 32 bilhões, comunicou a demissão de 2.250 pessoas, aproximadamente 11% do quadro global. Foi a segunda rodada em sete meses. Em carta interna obtida pelo The Insurer, o cofundador e CEO Greg Williams escreveu que "avanços em tecnologia, IA e plataformas digitais estão mudando fundamentalmente como as empresas operam, como clientes esperam ser atendidos e como valor é criado". A gramática é a de Wall Street: reestruturação anunciada em sexta, execução em ondas rápidas, apoio no discurso de eficiência.
A Munich Re, resseguradora alemã, opera em outra chave. Em fevereiro, a subsidiária Ergo comunicou a redução de 1.000 posições atribuída à IA, mas alongou o plano até 2030 e escreveu no material oficial que não haverá demissões forçadas nem fechamento de sites. Em paralelo, abriu no primeiro semestre uma academia de requalificação em Düsseldorf, um centro de custo próprio pago com margem operacional. É a gramática do capitalismo renano, com sindicatos com assento no conselho e Betriebsrat aprovando reestruturações. A Allianz, também alemã, ficou no meio ao cortar entre 1.500 e 1.800 vagas em seguros de viagem, com prazo de 12 a 18 meses, majoritariamente em call centers.
Já o Nippon Life, dono da nova Acenda na Austrália, escolheu três ondas: 85 posições de gerência sênior, 150 de gerência plena e 50 na terceira leva, sem menção explícita à IA no material oficial. O sindicato local, o FSU, contesta a consulta. É a gramática do integrador pós-aquisição: eficiência de fusão, IA implícita no roteiro.
Onde a análise rasa erra
O instinto do leitor apressado é escolher lado. IA está eliminando trabalho ou requalificando? O quadro real é caso a caso. A Acrisure vinha crescendo por aquisições em ritmo de private equity até 2024, e a IA é agora justificativa comercial para consolidar back office. A Munich Re, que sempre operou com cultura de retenção alta, redistribui o choque de produtividade ao longo de cinco anos. Chamar as duas movimentações de "corte por IA" mistura dinâmicas distintas.
Há evidência que pesa contra a tese fácil de "IA reduz custo e ROI vem". Um relatório do Gartner de maio observou que organizações que cortam pessoas por conta de IA não estão, em média, capturando o ROI prometido; quem captura é quem investe em habilidades e novo modelo operacional. Se o dado se sustentar, a Acrisure paga agora e colhe depois, ou não colhe.
O outro lado do argumento também precisa ser dito. A Munich Re fechou 2025 com US$ 63 bilhões de receita e margem de subscrição em alta, o que lhe dá espaço para não cortar. A Acrisure carrega dívida de aquisições financiadas por private equity, e essa mesma folga inexiste. Não é bondade contra frieza; é estrutura de capital pesando na velocidade da mudança.
O que o CIO de seguros vai medir
Para o executivo de tecnologia de uma seguradora com operação em Zurique, Tóquio ou São Paulo, a pergunta prática é onde a produtividade se converte em receita. Nas três casas citadas, o ponto de convergência é o mesmo: call center, atendimento a sinistros e regulação básica saem primeiro. Onde os três divergem é em subscrição, precificação e relacionamento corporativo, e nesses processos ainda faltam benchmarks públicos claros de ganho.
O teste dos próximos dois trimestres é se o RAISE US, com pilotos em Arkansas, Connecticut, Maryland e Utah, entrega métrica de recolocação em setores próximos, seguros incluídos. Se as sponsors abrirem números, a coalizão sai da defesa reputacional e vira instrumento operativo. Se ficarem só nos white papers, a Ergo já terá provado sozinha que existia caminho.