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Cloudflare bloqueia por padrão crawlers de IA de uso misto

Portão de bronze semifechado no lobby de marmore de uma antiga sede de jornal ao entardecer, com pilhas de jornais sob luz dourada.

Novo padrão vale de hoje em diante para clientes free e novos sites: bots que combinam busca, treinamento e agente ficam bloqueados em qualquer página monetizada por publicidade.

A partir desta segunda-feira, 15 de setembro, a Cloudflare passa a bloquear por padrão os chamados crawlers de uso misto em qualquer página que exiba publicidade. A regra atinge automaticamente novos clientes, novos sites cadastrados por clientes existentes e a totalidade da base gratuita. Clientes pagantes com configuração anterior mantêm o que já tinham, mas qualquer site novo criado a partir de hoje entra no regime restritivo.


O alvo específico é o bot que faz três trabalhos em um user-agent: indexar para busca, buscar páginas em nome de um agente e coletar conteúdo para treinamento. Segundo a Cloudflare, a mistura de propósitos permitia às gigantes de IA capturar o valor comercial do conteúdo sob rótulo de search bot. Daqui em diante, o operador do crawler precisa apresentar user-agents separados para cada finalidade ou aceitar ser bloqueado nas fatias monetizadas do tráfego.


O que muda para publishers e para labs de IA


O anúncio original de 1 de julho já sinalizava o prazo de 15 de setembro. A Content Signals Policy da Cloudflare, lançada em setembro de 2025, divide o uso permitido em três categorias que o publisher declara via robots.txt: search, AI answers e AI training. O novo padrão fixa training e agent como bloqueados em páginas com anúncio e mantém search como permitido. A escolha desenha, na prática, um perímetro pago em torno do conteúdo que sustenta o modelo publicitário da web aberta.


No mesmo movimento, a Cloudflare aposentou o Pay Per Crawl, lançado em julho de 2025, e o substituiu pelo Pay Per Use, um marketplace que só cobra do consumidor de IA quando o conteúdo é efetivamente usado em uma resposta gerada. Ceramic.ai e You.com aparecem como parceiros iniciais. A lógica se aproxima mais de royalties sobre uso do que de tarifas de acesso, e responde a uma crítica frequente dos labs: pagar por página que nunca aparece em uma resposta.


Como isso reverbera em três mercados


Nos Estados Unidos, onde OpenAI, Anthropic, Google e Perplexity concentram a maior parte dos crawlers afetados, o efeito imediato é operacional. Bots que hoje passam por vasta franja de sites free-tier vão precisar de user-agents separados até a virada, e cada bot exposto individualmente vira alvo de bloqueio seletivo. Numa transcrição de call trimestral em agosto, Sam Altman disse a analistas que conteúdo original de qualidade continua a ser mais valioso, não menos, à medida que os modelos maturam. É retórica que casa com a nova assimetria.


Em publishers europeus, Le Monde, Der Spiegel e Financial Times operam há meses com contratos de licenciamento próprios com OpenAI e News Corp. Para eles, o novo padrão sela um teto de negociação e dá alavanca a publishers menores que não têm contrato individual. A German Media Publishers Association já sinalizou intenção de usar o Content Signals como padrão setorial em negociações coletivas do próximo ciclo.


No Brasil, onde as grandes casas jornalísticas ainda dependem majoritariamente de acordos comerciais bilaterais com Google e Meta e onde o PL 2.630 continua parado, o mecanismo Pay Per Use oferece uma alternativa técnica que dispensa negociação individual com cada laboratório de IA. É opção mais interessante para veículos de médio porte sem equipe jurídica dedicada, e coloca em xeque a lógica de que só as grandes redações conseguem monetizar o próprio conteúdo em IA.


O que a jogada não resolve


Há pontos cegos. Crawlers hospedados em residenciais, IPs rotativos e scrapers boutique operam num espaço cinza que padrão default de rede não alcança. Matthew Prince, CEO da Cloudflare, admitiu no anúncio original de julho que a política vale para o tráfego declarado e é uma linha de defesa, não um muro. A guerra por dados de treinamento continua, mas agora numa parte mais escura da rede.


Há também um efeito colateral estratégico raramente discutido. Ao empurrar labs para user-agents separados, a Cloudflare também expõe métricas de comportamento antes ofuscadas: volume por finalidade, frequência de recrawl, cobertura setorial. Publishers passam a enxergar quem realmente treina em seus arquivos e quem apenas responde consultas de agente. Nathan Benaich, do Air Street Capital, escreveu na newsletter State of AI de agosto que essa transparência favorece a negociação de tiers de licenciamento diferenciados por tipo de uso, o modelo que a indústria musical acabou adotando após duas décadas de guerra com o Napster.


O teto financeiro do exercício também merece nota. A Cloudflare não divulgou volume de transações do Pay Per Crawl no piloto, e não há projeção pública para o Pay Per Use. Publishers pequenos ganham controle técnico; se ganham receita relevante depende do apetite dos labs em preencher o marketplace. A resposta virá nos próximos dois trimestres, e ela vale mais do que o próprio bloqueio default: mostra se o mercado de dados de IA vira infraestrutura precificável ou continua a operar por captura oportunista.

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