Google e Microsoft alinham cinco gigantes contra a MCP da Anthropic e reabrem a guerra de protocolos

A The Information detalha nesta segunda a coalizão que promove o ARD como alternativa à MCP. O ganho não declarado é reduzir o imposto implícito de rodar agentes em stack padronizada por concorrente.
A The Information publicou na segunda-feira (13) reportagem que consolida o desenho da nova aliança de protocolo empresarial. Google, Microsoft, Salesforce, Snowflake e ServiceNow assinaram suporte a um padrão comum para conectar agentes de IA a dados corporativos, com adesão paralela de Cisco, Databricks, GitHub, GoDaddy, Hugging Face e NVIDIA. O protocolo, batizado de Agentic Resource Discovery (ARD), foi anunciado em 18 de junho, mas o material publicado nesta segunda traz o mapa das razões estratégicas por trás da coalizão: reduzir a dependência da MCP da Anthropic, que virou o padrão de facto em 18 meses.
A MCP (Model Context Protocol) tem, segundo dados públicos do consórcio Linux Foundation, cerca de 97 milhões de downloads mensais de SDK e mais de 9.400 servidores públicos. A Anthropic lançou a especificação em novembro de 2024 e doou o repositório à Agentic AI Foundation em dezembro de 2025. Cada grande provedor de IA, incluindo OpenAI, Google DeepMind e Microsoft, já implementou suporte nativo. A doação foi taticamente eficaz, mas não elimina o ponto de tensão: a Anthropic segue exercendo influência editorial sobre a evolução do padrão.
O que muda no encanamento
O ARD não substitui a MCP. Ele opera em uma camada acima. Se a MCP é a porta USB-C que permite ao agente se conectar a uma ferramenta empresarial, o ARD é o serviço de descoberta que informa ao agente qual porta usar em cada contexto de dados. Na prática, o ARD roda sobre sistemas de identidade corporativa (Azure AD, Okta, Google Workspace) e catálogos de dados (Snowflake Horizon, Databricks Unity, ServiceNow AI Platform). O objetivo declarado é permitir que empresas orquestrem agentes sem passar por infraestrutura não controlada pelas plataformas onde os dados já estão.
Para o CIO, o vocabulário concreto é este. Com ARD, uma consulta agêntica de dados que hoje passa pela camada MCP da Anthropic passa a poder rodar dentro do controle direto de Microsoft Purview ou Google Sensitive Data Protection. O ganho declarado é governance. O ganho não declarado é reduzir o imposto implícito de rodar agentes empresariais em uma stack padronizada por um concorrente.
O paralelo TCP/IP não é retórico
As duas últimas guerras de protocolo, TCP/IP nos anos 1980 e HTTP nos anos 1990, decidiram quem controla a economia de infraestrutura por décadas. Salesforce guarda dados de relacionamento com o cliente de mais de 150 mil empresas globalmente. Snowflake armazena o warehouse analítico de mais de 11 mil clientes, incluindo 700 do Fortune 2000. ServiceNow opera o workflow de TI de 8.400 empresas globais. Google Cloud e Microsoft Azure controlam juntos 42% do mercado de infraestrutura em nuvem, segundo o Synergy Research Q2 2026. Se os cinco alinham um mesmo padrão de descoberta agêntica, o default para qualquer implementação corporativa passa a ser ARD, não MCP.
A Anthropic tem contra-argumento operacional. Segundo dado divulgado pela empresa em junho, mais de 60% dos servidores MCP em produção em maio rodavam código open source contribuído por terceiros, e menos de 15% do tráfego passa por endpoints controlados pela Anthropic. Um documento interno do Databricks vazado ao The Information em maio detalha que a arquitetura ARD depende de conectores proprietários por vendedor, o que reintroduz o mesmo lock-in que a MCP nasceu para atacar. Cortar da apresentação uma padronização vertical em nome de "governance" é fácil de vender ao board. Rodar dois protocolos em paralelo, não.
Onde o comprador realmente decide
Nos Estados Unidos, a batalha decisiva será nos contratos EA (Enterprise Agreements) que Microsoft e Google renegociam com o governo federal e grandes bancos entre outubro e dezembro. Se ARD entrar como pré-requisito de compliance FedRAMP High até o próximo trimestre, a lógica de plataforma se resolve por si.
Na Alemanha, o cenário é conservador. O BSI e o Bundesbank já sinalizam preferência por protocolos submetidos a órgão de padronização independente. A MCP está sob a Linux Foundation. O ARD tem seu processo de governance pendurado em um consórcio ad hoc, o que dá vantagem contratual imediata à Anthropic em contratos financeiros regulados por DORA.
No Japão, MUFG e SoftBank operam projetos-piloto com Databricks e Microsoft. A adoção do ARD tem custo real de reengenharia sobre implementações que começaram em fevereiro sobre MCP. As duas instituições ainda não se pronunciaram sobre a nova coalizão.
O que a próxima semana revela
O contra-ataque de Anthropic e OpenAI não deve ser um protocolo próprio. As duas empresas já anunciaram os primeiros MCP Enterprise Extensions, submetidos à Linux Foundation em junho, com governance transparente. Se os hyperscalers baixarem o preço do ARD para dentro do EA sem cobrança adicional, o comprador corporativo escolhe por atrito. Se o ARD chegar como upsell, a MCP mantém a inércia. A batalha não é de padrão. É de bundling.