AutoNation põe tecnologia e IA sob um só executivo, vindo da Avis
Ravi Simhambhatla, ex-Avis Budget e Google Cloud, assume como Chief Technology and AI Officer. A escolha contrasta com HSBC e Deloitte UK, que criaram um Chief AI Officer separado.

A AutoNation, uma das maiores redes de concessionárias de veículos dos Estados Unidos, anunciou nesta quinta-feira (1º) Ravi Simhambhatla como Chief Technology and AI Officer, com efeito a partir da mesma data. Ele passa a comandar, sob um único cargo, tecnologia, ciência de dados e a agenda de inteligência artificial da companhia, segundo o comunicado da empresa.
O desenho importa tanto quanto o nome. Ao juntar tecnologia e IA no mesmo executivo, a AutoNation escolhe o caminho oposto ao de empresas que criaram um Chief AI Officer separado do CTO. A decisão diz quem vai responder pelo resultado dos agentes de IA quando eles saírem do piloto e entrarem no balcão de vendas, na oficina e no financiamento.
Um currículo de operação, não de laboratório
Simhambhatla chega com mais de 30 anos em tecnologia corporativa, segundo o comunicado da empresa. O cargo mais recente foi o de vice-presidente executivo e Chief Digital and Innovation Officer da Avis Budget Group, onde respondia por tecnologia global, produto, dados, engenharia, infraestrutura e cibersegurança, e liderou a adoção de IA e de tecnologia de frota conectada. Antes, foi diretor-geral no Google Cloud, assessorando empresas em projetos de nuvem, dados e IA, e ocupou posições sênior de tecnologia na United Airlines, cobrindo sistemas comerciais, comércio digital, fidelidade e gestão de receita.
O início de carreira passa por Aer Lingus, como CTO, Tesla, como vice-presidente de TI, e Virgin America, como CIO. Quase todo o percurso é em empresas de operação intensa em ativos físicos, frota e atendimento ao cliente, com margens apertadas. É o perfil de quem já teve de provar retorno de tecnologia em balanço, não em demonstração.
O tamanho do problema
A AutoNation fechou 2025 com receita de US$ 27,6 bilhões, alta de 3% sobre o ano anterior, segundo os resultados divulgados pela empresa. O negócio vai além da venda de carros novos: inclui seminovos, funilaria, peças, leilões e uma financeira cativa, cada um com seus próprios sistemas e dados.
Essa estrutura é exatamente o tipo de operação onde a IA promete mais e entrega com mais atrito. Precificação de seminovos, crédito ao consumidor, agendamento de oficina e atendimento pós-venda dependem de dados espalhados por sistemas de concessionária, montadoras e financeiras. Um executivo que responde por tecnologia e IA ao mesmo tempo não pode culpar a infraestrutura pelo atraso dos agentes, nem os agentes pelo custo da infraestrutura.
Dois modelos de governança em disputa
O caminho da AutoNation contrasta com o do HSBC. Em março, o banco anunciou seu primeiro Chief AI Officer, com efeito em 1º de abril, e promoveu para o posto David Rice, então diretor de operações da área de banco corporativo e institucional. Na mesma reorganização, ampliou o escopo do CTO Mario Shamtani, que ficou com a modernização das plataformas centrais, a construção de uma plataforma interna de IA com acesso a diversos modelos e as principais parcerias tecnológicas. No HSBC, a IA ganhou um dono próprio; a fundação técnica ficou com outro.
A Deloitte no Reino Unido seguiu linha parecida com a do HSBC. Em junho, nomeou Hayley McKelvey como sua primeira Chief AI Officer, com responsabilidade pela estratégia de IA tanto nos serviços a clientes quanto nas operações internas, ao lado de um sócio-diretor separado para Tecnologia e Transformação.
Os dois modelos respondem a problemas diferentes. O cargo separado funciona quando a IA precisa atravessar áreas de negócio com orçamentos e prioridades próprias, como em um banco global ou numa firma de serviços profissionais com dezenas de práticas. O cargo unificado faz mais sentido quando o gargalo é a integração entre sistemas legados e novos agentes, e quando a empresa não quer duas cadeias de comando disputando o mesmo orçamento de tecnologia.
O custo do modelo unificado aparece no escopo. Numa rede de concessionárias, tecnologia inclui os sistemas de gestão de loja, e o setor conhece o risco: em 2024, um ataque ao fornecedor de software CDK Global paralisou operações de concessionárias em todo o país. A mesma cadeira que responde pela expansão dos agentes de IA responde pela infraestrutura que eles vão acessar. Isso concentra a prestação de contas, mas também a carga.
Para consultorias que vendem programas de IA a varejistas e redes de serviços, a nomeação muda o interlocutor: na AutoNation, quem decide sobre IA é o mesmo executivo que responde por nuvem, dados e integração. Propostas que separam "estratégia de IA" de "modernização de sistemas" em contratos distintos, com patrocinadores diferentes, perdem sentido numa estrutura assim. Em empresas que adotarem o modelo do HSBC, a mesma separação continua sendo o caminho natural da venda.
Fontes
- investors.autonation.comhttps://investors.autonation.com/press-releases/news-details/2026/AutoNation-Appoints-Ravi-Simhambhatla-Chief-Technology-and-AI-Officer/default.aspx
- morningstar.comhttps://www.morningstar.com/news/business-wire/20261001764907/autonation-appoints-ravi-simhambhatla-chief-technology-and-ai-officer
- ciodive.comhttps://www.ciodive.com/news/hsbc-introduces-ai-role-c-suite/815579/
- deloitte.comhttps://www.deloitte.com/uk/en/about/press-room/deloitte-uk-appoints-first-chief-ai-officer-2026.html