Altman, Amodei e Hassabis chegam ao G7 em Évian com agendas opostas sobre regulação de IA

Pela primeira vez, os CEOs das três maiores empresas de IA do mundo confirmaram presença no G7, reunido em Évian em 15 de junho. As posições de OpenAI e Anthropic sobre regulação vinculante são incompatíveis e chegam ao fórum sem consenso interno.
Sam Altman, Demis Hassabis e Dario Amodei confirmaram presença no G7 de Évian-les-Bains, que abre em 15 de junho, reunindo pela primeira vez os CEOs dos três principais laboratórios de IA do mundo num fórum de líderes das sete maiores economias. A lista foi divulgada pelo Palácio do Elíseo, segundo reportagem do Bloomberg publicada em 12 de junho. Também confirmados: representantes da Mistral AI, que o governo francês promove como contrapeso europeu ao domínio americano no setor. A presença conjunta dos três transforma Évian no maior fórum já realizado entre líderes de IA e chefes de Estado, mas não elimina as tensões internas ao setor sobre o que cada um deve pedir.
Amodei pressiona por regulação com dentes
Três dias antes de embarcar para a França, Amodei publicou o ensaio "Policy on the AI Exponential", defendendo que os EUA criem um mecanismo legal para bloquear ou reverter o lançamento de modelos de fronteira que falhem em avaliações independentes de segurança. No mesmo dia, a Anthropic comprometeu US$ 350 milhões em dois programas: um fundo de pesquisa econômica de US$ 200 milhões e US$ 150 milhões em fellowships para jovens americanos afetados pela automação. A proposta se inspira diretamente na FAA: avaliações obrigatórias de modelos antes de cada release, cobrindo cibersegurança, armas biológicas, perda de controle sobre sistemas autônomos e aceleração de P&D por IA. Para plataformas como SAP, Oracle e Salesforce que integram modelos de fronteira de terceiros, a exigência de avaliação prévia afetaria diretamente o ciclo de desenvolvimento de cada atualização.
A posição contrária da OpenAI
A clivagem não é apenas EUA contra Europa. Dentro das próprias empresas americanas de IA, as posições são incompatíveis. O responsável por assuntos globais da OpenAI afirmou que a empresa espera que os executivos saiam do encontro com um "pacote de compromissos voluntários", não com uma estrutura vinculante, priorizando segurança de menores de idade e riscos cibernéticos e biológicos de fronteira. Para Altman, compromissos públicos de indústria são o modelo correto; para Amodei, transparência sem enforcement é regulação decorativa. Esse é o desentendimento que entrará na sala em Évian.
O que cada governo quer levar de Évian
Washington chegou com postura definida: qualquer linguagem sobre governança de IA no comunicado final deverá ser diluída, sem acordos multilaterais que limitem a vantagem competitiva americana na corrida por supremacia em IA. Macron quer que o G7 endosse o AI Act europeu como referência global, posicionando Bruxelas como árbitro de padrões técnicos e de segurança. Canadá e Reino Unido transitam entre as duas posições: o governo britânico Labour ainda elabora sua resposta regulatória pós-Brexit, enquanto o Canadá, com legislação de IA aprovada em 2026, busca que o G7 reconheça equivalência com o AI Act. Japão e Itália inclinam-se para a posição americana, evitando confronto direto com Macron. Esse arranjo torna improvável qualquer acordo vinculante.
O impacto para consultorias e CIOs globais
A Capgemini sinalizou, no balanço do quarto trimestre de 2025, que os bookings de IA generativa e agêntica ultrapassaram 10% da receita do grupo. Se EUA e UE chegarem a frameworks incompatíveis, esse book de negócio se divide em dois produtos distintos, cada um com avaliação, auditoria e documentação independentes, elevando o custo de entrega e abrindo espaço para compliance de IA como nova linha de alta margem para as Big Four e para Accenture.
A Índia, que concentra os maiores centros de delivery das consultorias globais, enfrenta posição mais delicada: TCS, Infosys e Wipro atendem simultaneamente clientes americanos e europeus. A possibilidade de trabalhar com modelos de IA aprovados em uma jurisdição mas não na outra cria fricção operacional concreta nos grandes polos de Bengaluru, Pune e Hyderabad, onde contratos de managed services de IA estão sendo renegociados agora.
O que o comunicado não vai resolver
O resultado mais provável em Évian é uma declaração de princípios sem força de lei, a mesma fórmula dos G7 anteriores sobre IA. O campo de batalha real é o que vem depois: a negociação de padrões técnicos em organismos como ISO/IEC JTC 1 e no NIST americano, onde as definições de "sistema de alto risco" e "avaliação obrigatória" para modelos de fronteira seguem em aberto. Um CIO que assina contratos de IA hoje com base nos requisitos de compliance correntes pode descobrir que o piso técnico mudou antes do vencimento do contrato.