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BCG fatura US$ 3,6 bi com IA e McKinsey corta 10%: a consultoria contra si mesma

Andar vazio de uma grande consultoria à noite, fileiras de mesas de analistas no escuro e apenas a sala de um sócio iluminada ao fundo.

A BCG tirou US$ 3,6 bilhões de trabalho com IA em 2025; a McKinsey planeja cortar 10% do quadro. As firmas que vendem automação ao mundo inteiro começaram a aplicar a ferramenta contra a própria pirâmide de lucro.

A Boston Consulting Group tirou US$ 3,6 bilhões de trabalho ligado a inteligência artificial em 2025, um quarto dos seus US$ 14,4 bilhões de receita, segundo números que a Bloomberg revelou em 23 de abril. Poucos dias antes, chegava aos sócios da McKinsey um plano para enxugar cerca de 10% do quadro em funções que não atendem clientes, algo na casa de alguns milhares de pessoas ao longo de 18 a 24 meses. As duas notícias descrevem a mesma indústria. Nela mora a contradição que vai marcar a consultoria em 2026: as firmas que mais faturam vendendo automação são as primeiras a virar a ferramenta contra a própria folha.


O dinheiro está na venda, o corte está nos bastidores


Nenhuma dessas casas encolhe por falta de demanda de IA. A Accenture acumulou US$ 5,1 bilhões em bookings de IA generativa nos doze meses até o fim de 2025 e elevou o time de especialistas em dados e IA para cerca de 77 mil pessoas, ante 40 mil dois anos antes. A própria Accenture decidiu parar de reportar o número de IA em separado a partir do segundo trimestre fiscal: a CEO Julie Sweet argumenta que a tecnologia já está embutida em quase tudo que a firma entrega, o que torna a métrica isolada sem sentido. Quando o indicador vira ruído porque a IA está em todo lugar, a fronteira entre "projeto de IA" e "consultoria" deixou de existir.


O corte, por enquanto, mira outro lugar. Os cerca de 200 desligamentos que a McKinsey fez no fim de 2025 atingiram tecnologia interna e suporte, não o exército que fatura hora de cliente. Perto de metade do quadro da firma está em funções de retaguarda, justamente onde a IA generativa hoje faz em minutos a pesquisa, o agendamento e a formatação que analistas júnior cobravam por semanas. O recado de Bob Sternfels, sócio-gerente global, foi explícito: mais reduções em papéis que não atendem clientes nos próximos dois anos, enquanto a casa promete contratar mais consultores de linha de frente.


A pirâmide que sustentava o lucro está rachando


O modelo clássico da consultoria é uma pirâmide: muitos analistas júnior na base produzem o material que poucos sócios no topo vendem caro. A IA ataca exatamente a base. Se uma análise que ocupava um time de recém-formados por dias agora sai em horas, a firma cobra menos horas, e a engrenagem que transformava mão de obra barata em margem alta perde força. A receita da McKinsey ficou praticamente parada entre US$ 15 bilhões e US$ 16 bilhões nos últimos cinco anos, depois de uma fase de contratação agressiva. Faturar o mesmo com menos gente é a definição educada de corte.


Há um contraponto que segura o roteiro do apocalipse. Os desligamentos não atingiram, até agora, o pessoal que atende cliente, e a McKinsey diz que vai contratar mais nessa frente. Gartner e Forrester já modelavam de 20% a 30% da receita das grandes firmas de estratégia vindo de IA, e os 25% da BCG caem dentro dessa faixa, não acima dela. O dinheiro da IA é real, mas ainda divide o orçamento com o velho trabalho de reestruturação. A pirâmide não desabou: está sendo redesenhada com menos degraus na base.


OpenAI e Google empurram a ficha para o centro da mesa


A aposta deixou de ser opcional. Em 23 de fevereiro, a OpenAI fechou com BCG, McKinsey, Accenture e Capgemini para vender e implantar sua plataforma de agentes Frontier, com engenheiros da própria OpenAI alocados dentro dos projetos e equipes das consultorias certificadas na tecnologia. BCG e McKinsey entram como parceiras de estratégia, Accenture e Capgemini como integradoras de ponta a ponta. Intuit, State Farm, Thermo Fisher e Uber já aparecem como primeiros clientes. Em abril, o Google Cloud anunciou um fundo de US$ 750 milhões para bancar consultorias na adoção de IA agêntica, segundo a Bloomberg.


Para quem dirige uma consultoria de TI no Brasil, o movimento é um aviso de duas pontas. A mesma IA que comprime o billing das gigantes comprime o seu, e a aliança entre OpenAI e Big Four reduz a vantagem de quem apenas revendia capacidade técnica. Sobra valor para quem entrega o que o agente não entrega sozinho: contexto de negócio, responsabilidade pelo resultado e a decisão de onde a automação deve, e onde não deve, ser aplicada. As firmas que escreveram o manual da eficiência alheia agora precisam provar que sabem aplicá-lo sem esvaziar o próprio motor de lucro.

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