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EY implanta 150 agentes de IA para 80 mil auditores enquanto Big Four automatizam o núcleo da conformidade

Fileira de mesas vazias de auditores juniores em firma do Big Four com binders de conformidade empilhados e laptop com interface de agente de IA no centro

Com bancos clientes cortando coletivamente mais de 10 mil vagas no Q2 2026, as quatro maiores firmas de auditoria do mundo implantam agentes de IA no trabalho que formou gerações de contadores.

O escopo do investimento


A Ernst & Young implantou 150 agentes de inteligência artificial para 80.000 profissionais de tax em todo o mundo. Segundo a própria EY, os agentes processam mais de 3 milhões de casos de conformidade tributária por ano e foram desenvolvidos com a Nvidia sobre infraestrutura de servidor próprio da firma, não em nuvem pública, por requisitos de confidencialidade dos dados dos clientes.


A KPMG comprometeu US$ 2 bilhões ao longo de cinco anos em IA via parceria com a Microsoft, com meta declarada de US$ 12 bilhões em receita adicional a partir de serviços habilitados por IA. A Deloitte opera o Zora, sistema de agentes desenvolvido com a Nvidia para automação de processamento de faturas e análise de tendências financeiras. A PwC conta com cerca de 200.000 usuários internos na plataforma ChatPwC e com o GL.ai para revisão automatizada de lançamentos contábeis.


A base de uma auditoria externa de grandes corporações é composta por tarefas repetíveis em alto volume: reconciliação de balancetes, confirmação de saldos com contrapartes, teste de controles internos em amostras de transações. Nas Big Four, esse trabalho é executado por profissionais com até três anos de carreira, alocados em Acceleration Centers com concentração na Índia (Bangalore, Hyderabad, Pune, Chennai) e em centros regionais no Leste Europeu e nas Filipinas. Esses profissionais representam a base de uma indústria que, somando as quatro firmas, emprega mais de 1 milhão de pessoas ao redor do mundo.


O sinal dos bancos clientes


Nos resultados do segundo trimestre de 2026, reportados entre 13 e 15 de julho, os maiores bancos americanos mostraram lucros recordes combinados com encolhimento de headcount. O Wells Fargo encerrou o Q2 com 197.000 funcionários, queda de 3.500 em relação ao trimestre anterior e de 15.000 em relação ao mesmo período do ano passado. O CFO Mike Santomassimo disse, em teleconferência com analistas, que a empresa espera operar com menos funcionários do que os atuais. Coletivamente, Bank of America, Wells Fargo, Citigroup, Goldman Sachs e Morgan Stanley reduziram seu quadro em mais de 10.000 postos no segundo trimestre.


Esses bancos são auditados pelas Big Four. Quando um banco corta 3.000 postos em middle office ao longo de um trimestre, o escopo do trabalho de auditoria dessas operações diminui. As firmas cobram por volume de testes, confirmações bancárias e reconciliações revisadas; menos operações significa menos receita, salvo que a firma consiga entregar mais análise por menos horas de profissional. Agentes de IA resolvem exatamente essa equação.


O regulador e o argumento do emprego


O PCAOB (Public Company Accounting Oversight Board), regulador americano das auditorias de empresas listadas, exige que toda conclusão de auditoria seja assinada por um auditor licenciado e anunciou em 2026 que está desenvolvendo padrões específicos para o uso de IA em evidências de auditoria. Enquanto esses padrões não estiverem vigentes, as firmas implantam agentes em tarefas de suporte, não nas etapas de evidência e conclusão. Um agente que processa 100.000 reconciliações não substitui o sócio que assina o relatório; substitui os 15 associates que preparavam o dossiê que o sócio revisava.


O argumento de que a automação "vai criar empregos de nível superior" para os profissionais deslocados é o que cada uma das quatro firmas repete em comunicações oficiais. A pergunta que esse argumento evita é aritmética: se uma firma passa de 15 para 3 profissionais para auditar um cliente de mesmo porte, os 12 excedentes precisam encontrar demanda em algum lugar. Firmas de auditoria alocam profissionais onde há receita, não por projeção de demanda futura.


Índia, Brasil e a velocidade da automação


Na Índia, onde as Big Four concentram seus Global Delivery Centers de maior volume em Bangalore, Hyderabad, Pune e Chennai, a automação de tarefas básicas de audit está avançando mais rápido do que em outros mercados. O argumento é direto: um agente que executa reconciliações a custo marginal próximo de zero compete diretamente com um profissional de entrada que, mesmo nos centros indianos, representa custo fixo relevante para as firmas.


No Brasil, as Big Four operam Centros de Serviços Compartilhados em São Paulo que atendem tanto clientes locais quanto operações de suporte de clientes globais. As regulações do CFC (Conselho Federal de Contabilidade) não contemplam explicitamente o uso de agentes de IA em evidências de auditoria, o que adiciona cautela regulatória às implantações locais. Enquanto o CFC não se pronunciar, o ritmo de automação no mercado brasileiro deve ficar abaixo do ritmo nos centros indianos, definindo uma janela para que as equipes locais reposicionem competências antes que a automação chegue com a mesma velocidade.

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