Broadcom dispara receita de IA para US$ 10,8 bi no trimestre e mira US$ 100 bi em 2027 com chip custom

Receita de chip custom de IA cresceu 143% em base anual no segundo trimestre fiscal. Anthropic contratará 1 GW em TPUs em 2026 e 3 GW em 2027, segundo o CEO Hock Tan, em sinal direto sobre o IPO do laboratório.
A Broadcom reportou US$ 22,2 bilhões de receita no segundo trimestre fiscal de 2026, alta de 48% em base anual, com a receita de semicondutores de IA atingindo US$ 10,8 bilhões, salto de 143% em base anual. O resultado, divulgado em 3 de junho após o fechamento do pregão, supera o teto do guidance da própria companhia e expande a previsão de receita anual de IA para US$ 56 bilhões no ano fiscal 2026, alta de 180% em relação a 2025. A meta para o ano fiscal 2027 passa de US$ 100 bilhões.
EBITDA ajustado foi recorde de US$ 15,2 bilhões, equivalente a 69% da receita do trimestre. Networking respondeu por quase 40% da receita de IA, com a companhia citando demanda por aceleradores custom e por switches Tomahawk Ultra e Jericho4 em deploys de hyperscaler. O guidance para o terceiro trimestre projeta receita de IA semicondutora de US$ 16 bilhões, alta de mais de 200% em base anual.
Quem está comprando e quanto
Na chamada de resultados, Hock Tan detalhou os seis clientes principais de chip custom: Google, Meta, OpenAI, Anthropic e dois ainda não identificados publicamente. Analistas de Bernstein e Morgan Stanley apontam Apple e ByteDance como prováveis, mas a Broadcom não confirmou. A Anthropic foi o cliente com escala detalhada na chamada: contratação de 1 gigawatt em TPUs em 2026, com escala para 3 gigawatts em 2027. A OpenAI deve receber o primeiro chip custom em 2027, segundo Tan, em janela próxima à do lançamento do Stargate Project com Oracle.
A divulgação dos números da Anthropic dá leitura cruzada para o IPO que a fabricante do Claude prepara para outubro. A despesa de capital implícita em 3 gigawatts de TPUs em um único ano é da ordem de dezenas de bilhões de dólares, o que ajuda a explicar por que a companhia precifica IPO em valuation aproximado de US$ 1 trilhão e mira até US$ 60 bilhões de captação. Goldman Sachs e Morgan Stanley lideram esse sindicato e também são as casas de equity research que mais agressivamente cobrem Broadcom com rating buy desde 2024.
Concentração de receita, e o que o concorrente da Nvidia vê
O ASIC custom da Broadcom é a alternativa estrutural à GPU Nvidia em deploys hyperscaler. A Nvidia ainda domina a fatia de mercado de aceleradores de IA por margem de software e lock-in de CUDA, mas o custo total por watt em data centers de novas gerações tem feito Google, Meta e Anthropic alocar workloads de inferência em chip custom para liberar GPUs Hopper e Blackwell para training. A relação chega a uma cifra absoluta no guidance: US$ 56 bilhões de receita de IA da Broadcom em 2026 é maior do que toda a receita de data center que a AMD reportou em 2025 (US$ 12,6 bilhões) e equivale a aproximadamente 25% do segmento data center da Nvidia projetado para o mesmo ano fiscal.
A leitura geográfica importa para quem opera fabs. A Broadcom não fabrica chips: depende da TSMC em Taiwan para nós N3 e N2 e da Samsung Foundry na Coreia do Sul para parte da produção de Tomahawk. O guidance de US$ 100 bilhões em 2027 pressupõe alocação preferencial de wafer da TSMC, o que coloca a fabricante de Hsinchu em posição de árbitra entre Nvidia, Apple e Broadcom no mesmo nó. A capacidade nova prevista para Phoenix, Arizona pela TSMC entra em produção em 2026, mas com volumes que não cobrem a soma das três demandas concorrentes.
Para o CIO em Londres, Tóquio e São Paulo
Para o CIO que negocia consumo de Google TPU, Meta MTIA via API, Claude via Bedrock ou diretamente Anthropic em qualquer dos três mercados, o número da Broadcom é o sinal mais claro até hoje de quanto da margem do hyperscaler depende de chip custom e não de GPU comprada na prateleira. A consequência prática é a janela de negociação: contratos plurianuais assinados nos próximos seis meses precificam a expectativa de queda de custo unitário que só se materializa em 2027, depois que a entrega de 3 GW de TPU da Anthropic estiver em produção e que a OpenAI receber seu primeiro chip custom. Quem assina antes dessa janela paga o legado de pricing baseado em GPU.
O efeito secundário aparece na linha de capex dos hyperscalers. Google, Meta e Microsoft saíram do primeiro trimestre com guidance combinado próximo de US$ 300 bilhões em capex para 2026; o número da Broadcom é a evidência de que a maior parte desse capex vai para silício custom e não para licenças de Nvidia. Operadores de cloud regional na Europa, Japão e Brasil, sem acesso a chip custom proprietário, ficam ainda mais dependentes da economia da GPU em prateleira, e perdem terreno marginal na economia de inferência.