Gartner projeta US$ 234 bilhões em gasto SaaS sob ataque de agentes de IA até 2030

Relatório publicado em 1 de julho por George Brocklehurst, vice-presidente da Gartner, calcula que 20% do gasto global com SaaS empresarial ficará exposto ao que a consultoria chama de agentic arbitrage.
O número que reajusta a leitura do CIO
A Gartner divulgou em 1 de julho um relatório que quantifica, pela primeira vez com cifra específica, o risco que agentes autônomos de IA impõem ao mercado de software empresarial. A consultoria estima que até 2030 US$ 234 bilhões de gasto anual em aplicações SaaS ficam expostos ao que chama de "agentic arbitrage", cerca de 20% do total. A projeção acompanha comentário de George Brocklehurst, Managing Vice President da Gartner, que assina o documento.
A definição é técnica e precisa. Segundo Brocklehurst, agentic arbitrage acontece quando um agente de IA executa a tarefa atravessando várias plataformas SaaS ao mesmo tempo, entregando o resultado ao usuário sem que ele precise abrir cada interface. "Sistemas agentic entregam desfechos diretamente e tornam o software invisível", disse Brocklehurst na apresentação. "Isso quebra o vínculo entre crescimento de usuários e crescimento de receita para muitos vendors."
Salesforce, ServiceNow e Workday no centro do alvo
O alvo do relatório é o modelo de precificação per seat que sustenta os três maiores vendedores de SaaS corporativo americano. Salesforce fechou 2025 com US$ 37,9 bilhões em receita apoiada em 150 mil clientes que pagam por licença de usuário. ServiceNow ultrapassou US$ 10 bilhões apoiado no mesmo modelo. Workday supera US$ 8 bilhões. Se o padrão da Gartner se materializar, cada um perde a métrica que os investidores usaram por 15 anos para justificar múltiplo elevado.
A reação dos vendors até agora foi antecipar o próprio agente. Salesforce lançou Agentforce em outubro de 2024 e cobra por conversation, US$ 2 por interação. ServiceNow embutiu Now Assist Agents na plataforma. Workday puxou parceria com Anthropic para deploy de agentes em processos de RH. Mas o modelo comercial ainda depende do assento pago. A Gartner argumenta que essa transição só é bem-sucedida se o vendor conseguir capturar o valor incremental de ROI que a automação libera, algo que Brocklehurst descreve como "menos apocalipse e mais metamorfose".
A leitura fora do Vale do Silício
Na Alemanha, a SAP enfrenta a mesma pressão pelo canal oposto. Como fornecedora dominante de ERP na Europa, a SAP defende que a proximidade com dado e workflow torna Joule mais defensável do que Salesforce contra a substituição por agentes de terceiros. Christian Klein, CEO da SAP, disse a analistas em maio que a empresa não segue o modelo per seat na venda de agentic e vai cobrar por resultado a partir de 2027. Em Bangalore, o efeito é o oposto: Infosys e TCS ganham pipeline de integração porque cada agente precisa ser conectado ao sistema de registro do cliente. A margem cai, o volume sobe.
Na América Latina, empresas de médio porte já enfrentam o dilema de continuar a pagar licenças completas de HRIS e CRM ou terceirizar o fluxo para um agente que consulta as duas plataformas via API. TOTVS, líder brasileira de ERP com 40 mil clientes, tratou o tema em call de resultados de maio afirmando que o TOTVS Agent, lançado em novembro de 2025, é a peça que garante retenção contra ataques de agentes externos. É a mesma tese da SAP, adaptada para escala regional.
O que enfraquece a projeção da Gartner
A visão contrária é conhecida. Analistas do Morgan Stanley e do Bernstein argumentam que projeções de Gartner sobre substituição de software historicamente superestimaram o timing. A previsão de que ERP on-premises seria extinto até 2015 errou por uma década. A curva de adoção de agentic depende de dado estruturado que grande parte das empresas ainda não tem, e o custo por operação de agente hoje, entre US$ 0,50 e US$ 4,00 por tarefa complexa, ainda torna a matemática vantajosa apenas em workflows de alta frequência.
O ponto que a projeção não perde: mesmo se a Gartner errar em 40% na cifra, o modelo comercial per seat perde tração no ciclo de renovação de 2027 e 2028. Quem vende software para CIO precisa começar agora a renegociar contrato baseado em outcome, ou vai chegar em 2029 tentando salvar receita que já vazou para o agente que ninguém aprovou formalmente. E para o comprador, a leitura é simétrica: aceitar renovar contrato de três anos em modelo per seat entre 2026 e 2028 é assinar em cima de uma métrica que a própria Gartner acaba de dizer que deixa de fazer sentido.