A IA mira o assistente executivo: PwC corta 600 e McKinsey 200 em funções de apoio

As maiores consultorias do mundo começam a eliminar e deslocar assistentes executivos, cargos que pagam mais de US$ 100 mil ao ano, à medida que a IA absorve o trabalho repetitivo. O que isso sinaliza para os centros de serviço na Índia e no Brasil.
As maiores firmas de consultoria do mundo começaram a desmontar uma função que parecia intocável: a do assistente executivo. Segundo reportagem da Bloomberg publicada em 21 de maio, a PwC dispensou cerca de 600 assistentes, recrutadores e outros profissionais de apoio em fevereiro, nos Estados Unidos, com pacote de quatro a seis semanas de indenização. A McKinsey cortou cerca de 200 vagas técnicas e de suporte no fim do ano passado, menos de 0,5% de um quadro de 40 mil pessoas. EY e KPMG, ainda de acordo com a reportagem, vêm transferindo posições semelhantes para estados mais baratos ou para fora do país. São cargos que podem pagar mais de US$ 100 mil por ano com bônus.
Por que o assistente é o primeiro a cair
O trabalho do assistente executivo, agendar, organizar viagens, preparar documentos, filtrar comunicações, é repetitivo e baseado em regras, justamente o perfil que as ferramentas de IA absorvem com mais facilidade. É também um custo visível e mensurável, o que o torna alvo conveniente quando a firma decide demonstrar disciplina de despesa. Por isso o corte funciona como indicador antecedente: não pela escala, já que os 200 da McKinsey somam menos de meio por cento do quadro, mas pela direção. Quando uma função inteira, bem remunerada e historicamente estável, passa a ser tratada como automatizável, o sinal alcança todas as camadas de apoio das grandes organizações.
A movimentação não vive isolada. A própria EY firmou em 21 de maio uma aliança de mais de US$ 1 bilhão com a Microsoft para distribuir o Copilot a mais de 400 mil funcionários, depois de relatar ganho de 15% de produtividade entre os 150 mil primeiros usuários. Investir na ferramenta e cortar a função que ela substitui são dois lados do mesmo balanço.
O pano de fundo é um setor que já vinha enxugando antes mesmo do Copilot. A Accenture eliminou cerca de 11 mil vagas em uma reestruturação anunciada no fim de 2025 e depois voltou a contratar mais de 4 mil pessoas no primeiro trimestre fiscal de 2026, agora com foco em competências de IA. A KPMG prepara o corte de cerca de 400 posições de consultoria nos Estados Unidos, atribuídas à demanda mais fraca. O assistente executivo é o caso mais nítido porque é o mais fácil de medir, mas entra numa conta de reorganização que já estava em andamento, em que a IA é menos a causa única e mais o acelerador.
O ceticismo que o caso exige
Atribuir o corte à IA, porém, pede cautela. Parte do que a Bloomberg descreve é deslocamento geográfico, não eliminação: mover um assistente de Nova York para um estado de menor custo ou para outro país é redução de despesa, não prova de que um agente assumiu a tarefa. Economistas como Peter Cappelli, da Wharton, lembram que o caso financeiro das demissões por IA costuma ser exagerado, e que pressão de investidores e excesso de contratação recente explicam boa parte da conta. A demanda mais fraca por consultoria no início de 2026 também pressiona o quadro. A IA acelera uma decisão que as firmas tomariam de qualquer modo, e separar uma coisa da outra, com os dados públicos disponíveis, não é possível.
O degrau seguinte: da Índia ao Brasil
O corte não desaparece quando a função é mandada para fora do país, apenas muda de endereço, e o endereço seguinte herda o mesmo risco. A PwC opera Acceleration Centers em Kolkata, Bangalore e Hyderabad, na Índia, justamente o tipo de centro que absorve o trabalho de apoio e de documento deslocado dos Estados Unidos. A Índia é o destino global preferido para essas funções, e é também onde a automação encontra o maior volume de tarefas baseadas em regras para eliminar. As empresas de capacidade global instaladas no país já contratam menos gente no nível de entrada, porque a IA comprime a base da pirâmide antes de tocar o topo. Mover o assistente de Nova York para Bangalore reduz a despesa por um ciclo, não protege a vaga do ciclo seguinte.
O Brasil ocupa o mesmo tabuleiro por outro flanco. O país abriga centros de serviços compartilhados e operações de BPO que atendem firmas globais e empregam dezenas de milhares de pessoas em funções de apoio parecidas. Consultorias nacionais como CI&T e Falconi, e os captives das multinacionais instalados aqui, leem no corte da PwC um aviso sobre o próprio modelo: a lógica que automatiza o assistente em Nova York e o analista em Bangalore chega ao centro de serviço em São Paulo sem pedir licença.
O degrau realmente perigoso é o mesmo nos três lugares: o analista júnior, que faz o trabalho de documento baseado em regras e sempre foi a porta de entrada da carreira em consultoria. Se a IA já alcançou o apoio administrativo das maiores firmas do mundo, a pergunta deixou de ser se ela sobe a pirâmide e passou a ser quanto tempo leva até chegar ao primeiro posto pelo qual passa quem quer virar sócio, seja esse posto em São Paulo, Bangalore ou Nova York.