Seguradoras cortam 21% dos reguladores e apostam em agentes

Emprego no segmento caiu 21% em doze meses e as vagas de nível inicial recuaram 50%. A automação de sinistros avança, mas a atribuição direta à IA tem contestação com nome e dados.
Uma nota editorial publicada pela Insurance Journal em 21 de setembro trouxe o número que o setor de seguros vinha evitando olhar de frente: entre as avaliações de empregados compiladas pelo Glassdoor Employee Confidence Index, os reguladores de sinistros são a categoria mais crítica em relação à inteligência artificial, com 98% de menções negativas. No mesmo levantamento, o emprego no segmento caiu 21% em doze meses e as vagas de nível inicial para reguladores recuaram 50%.
Os dados oficiais americanos acompanham a direção. O emprego em serviços financeiros e seguros nos Estados Unidos passou de 6.733.400 postos em agosto de 2025 para 6.651.100 em agosto de 2026, uma perda de aproximadamente 82 mil vagas, segundo o Bureau of Labor Statistics. Só em agosto foram 7.400 postos a menos, dos quais 6.300 em seguradoras e atividades relacionadas. Reguladores de sinistros responderam por 13.100 das perdas do ano, ou 17,5% do total de 74.800 cortes no segmento de carriers.
A automação que já está em produção
A Allianz construiu o Project Nemo, um sistema multiagente para sinistros de perda de alimentos perecíveis que reduziu o tempo de processamento em 80%, segundo a própria seguradora. Cada agente cuida de uma etapa, da entrada do aviso à recomendação de pagamento, e o caso só sobe para um humano por exceção. A Lemonade informa que, no fechamento de 2025, 96% dos avisos de sinistro eram recebidos sem intervenção humana e 55% dos sinistros eram resolvidos de ponta a ponta automaticamente.
O corte mais explícito veio da corretagem. Em memorando interno de 20 de maio, o presidente-executivo da Acrisure, Greg Williams, comunicou a eliminação de 2.250 postos, cerca de 11% de um quadro de 19 mil pessoas em 24 países, e atribuiu a decisão ao uso de IA, dados e automação para reduzir trabalho manual.
O contra-argumento tem nome
Robert Hartwig, professor da Darla Moore School of Business da Universidade da Carolina do Sul e ex-economista-chefe do Insurance Information Institute, considera a causalidade entre corte de vagas e adoção de IA mais embaçada do que parece. O Federal Reserve vem reduzindo juros desde setembro de 2024, até 3,63% em agosto de 2026, e a queda mais acentuada de emprego chega depois de mais de um ano de afrouxamento. O crescimento orgânico mediano da corretagem de varejo americana desacelerou para 5,9% no primeiro trimestre de 2026, o ritmo mais fraco desde 2021. Parte do que se atribui a algoritmo é margem apertada.
Martha Gimbel, diretora-executiva do Budget Lab de Yale, coloca a objeção de forma mais seca: não temos bom histórico em prever como a mudança tecnológica se acomoda no mercado de trabalho. Pesquisadores da Brookings mediram a composição ocupacional americana desde o lançamento do ChatGPT e não encontraram o deslocamento agudo que as manchetes projetavam.
Há também um dado que enfraquece a tese do colapso da profissão, e ele merece ficar visível: as vagas seniores para reguladores continuam cerca de 80% acima do nível de 2017. O que encolhe não é a ocupação, é a base dela. E a distinção que o debate raso ignora é justamente essa. Automatizar a entrada de um aviso de sinistro é um problema estruturado, resolvido por extração de dado e regra. Arbitrar cobertura, fixar reserva e sustentar uma negação diante de um litígio não é. Os 55% da Lemonade são sinistros pequenos, limpos e de baixa severidade. A régua correta não é quantos sinistros a máquina fecha, é qual camada da pirâmide ela remove.
Estados Unidos, Alemanha, Índia e Brasil
Nos Estados Unidos, o corte é medido e visível: BLS, Glassdoor e memorandos como o da Acrisure em Grand Rapids. Na Alemanha, a Allianz desloca o trabalho sem demitir na mesma proporção, o que muda o desenho do quadro antes de mudar o tamanho dele. Na Índia e nas Filipinas, onde centros de serviços compartilhados processam sinistros de seguradoras americanas e britânicas, o efeito é de segunda ordem e mais brutal: o trabalho terceirizado para lá foi exatamente o de nível inicial que agora vira agente. No Brasil, a exposição está nos centros de operações de sinistro e nos BPOs que atendem seguradoras locais e estrangeiras, e há uma diferença regulatória: a Susep exige rastreabilidade de decisão em negativas de cobertura e um agente que decide sem trilha auditável cria passivo, não eficiência.
O Bureau of Labor Statistics projeta queda de 6% no emprego de reguladores de sinistros entre 2025 e 2035. Essa projeção pressupõe um funil que continue formando gente. Com as vagas de entrada caindo 50% em um ano e as postagens para a função recuando 55% desde o pico pós-pandemia, contra 36% no mercado de trabalho geral, a restrição de 2032 não será excesso de reguladores. Será a ausência de profissionais com dez anos de estrada para revisar o que o agente decidiu.