UE escolhe startup italiana Domyn para treinar modelo de IA aberto com mais de 400 bilhões de parâmetros em 24 idiomas

Comissão Europeia seleciona consórcio EUROPA, liderado pela italiana Domyn, para desenvolver o primeiro modelo de inteligência artificial de fronteira open-source em todos os idiomas oficiais da UE.
Aposta de soberania computacional
Na sexta-feira, 19 de junho, a Comissão Europeia escolheu o consórcio EUROPA, liderado pela startup italiana Domyn, como vencedor do Frontier AI Grand Challenge. O projeto receberá até 2,5% da capacidade computacional total dos supercomputadores EuroHPC por um ano para treinar um modelo de linguagem open-source com mais de 400 bilhões de parâmetros, desenvolvido nos 24 idiomas oficiais da União Europeia.
A iniciativa foi lançada em fevereiro de 2026 pela Comissão Europeia em conjunto com a EuroHPC, a rede europeia de supercomputação, com o objetivo declarado de criar um modelo de IA comparável em escala aos sistemas de OpenAI, Google e Anthropic, mas sob governança europeia e com código-fonte aberto ao público. A escala mínima exigida, 400 bilhões de parâmetros, situa a proposta vencedora no mesmo tier dos modelos GPT-4o e Llama 4.
O consórcio e o modelo
O Frontier AI Grand Challenge exigia arquiteturas eficientes capazes de operar na escala de fronteira. O modelo EUROPA usará Mixture-of-Experts (MoE), um design que permite escala de parâmetros sem crescimento proporcional no custo de inferência, a mesma abordagem adotada pela família Llama 4 da Meta. Ao fim do treinamento, o modelo será disponibilizado como open-source, diferenciando-se dos modelos fechados dos grandes laboratórios americanos.
A Domyn, sediada em Milão, lidera o consórcio. A empresa compete em um segmento restrito de startups europeias de IA de fronteira, ao lado de nomes como Mistral AI, de Paris, e Aleph Alpha, da Alemanha. A composição completa do consórcio, incluindo parceiros de pesquisa e infraestrutura de computação, ainda não foi divulgada pela Comissão Europeia.
Por que uma startup italiana lidera
A Comissão escolheu um consórcio encabeçado por Domyn, e não por uma universidade ou instituto público como o INRIA francês ou o DFKI alemão, sinalizando que quer construir capacidade industrial nativa, não apenas científica. É a primeira vez que a Comissão Europeia financia diretamente o treinamento de um modelo de IA de fronteira, em vez de se limitar a regular os modelos produzidos por outros. A distinção importa: regular é colocar limites no que os outros fazem; treinar é reivindicar o direito de fazer primeiro.
A EuroHPC conta com supercomputadores no nível do top-10 mundial. O LUMI, na Finlândia, o Leonardo, na Itália, e o MareNostrum 5, na Espanha, figuram entre os sistemas que poderão ser alocados ao projeto. Reservar 2,5% da capacidade coletiva por um ano é o maior compromisso de infraestrutura de compute já assumido no contexto da política europeia de IA.
Soberania versus desempenho: o dilema real
A decisão coloca a Europa em confronto estratégico com o modelo de negócios dos grandes laboratórios americanos. OpenAI, Anthropic e Google oferecem modelos de ponta sob licenças proprietárias e dependência de infraestrutura americana. A Meta é a exceção relevante: a Llama 4, open-source e na mesma faixa de parâmetros, serve como referencial técnico direto para o projeto EUROPA.
A diferença não é só técnica, é de governança. Um modelo europeu treinado em EuroHPC sob licença aberta endereça clientes institucionais que hoje não podem usar GPT-4o em aplicações sensíveis: hospitais públicos na Alemanha, tribunais em Portugal, agências de segurança na Polônia. Nenhum desses setores pode terceirizar dados para um modelo americano sem violação do RGPD ou de restrições nacionais de soberania. São centenas de instituições públicas nos 27 países membros que precisam de modelos de linguagem para tarefas que vão de triagem médica a análise jurídica, e que hoje não têm alternativa local no tier de fronteira.
O ceticismo legítimo é técnico, não político: pode uma startup italiana liderando um consórcio com 2,5% de um cluster compartilhado chegar à paridade com laboratórios que investiram dezenas de bilhões em infraestrutura proprietária e datasets exclusivos? A Mistral AI, europeia e bem capitalizada, ainda não lançou um modelo no tier de 400 bilhões de parâmetros. A Domyn terá de fazer primeiro o que nem mesmo a líder europeia de IA fez.
Se o modelo EUROPA atingir paridade em pelo menos doze dos 24 idiomas nos benchmarks padrão como MMLU e MT-Bench até o lançamento, a aposta parecerá visionária em retrospecto. Se ficar cinco pontos abaixo dos líderes, o debate sobre contratar modelos americanos com garantias contratuais de soberania voltará com força redobrada. O resultado técnico, esperado para 2027, definirá os termos da disputa de IA soberana no bloco pelos próximos cinco anos.