Anthropic protocola IPO confidencial à SEC e dispara à frente da OpenAI na corrida ao trilhão

Fabricante do Claude apresentou rascunho de S-1 menos de uma semana após Série H de US$ 65 bi liderada por Altimeter e Sequoia. Run rate anualizado saltou para US$ 47 bi.
A Anthropic apresentou nesta segunda-feira (1) um rascunho confidencial de prospecto à Securities and Exchange Commission, num movimento que coloca a fabricante do Claude à frente da OpenAI na corrida pela primeira abertura de capital de um laboratório de IA de fronteira. O anúncio saiu em comunicado no site da própria empresa. "Isto nos dá a opção de abrir o capital depois que a SEC concluir sua análise. A oferta pública inicial proposta dependerá das condições de mercado e de outros fatores", afirmou a companhia. O número de ações e o preço de oferta ainda não foram definidos.
A apresentação chega menos de uma semana depois da Série H de US$ 65 bilhões liderada por Altimeter Capital, Dragoneer, Greenoaks e Sequoia Capital, que elevou o valor de mercado da Anthropic para US$ 965 bilhões. O número fica US$ 113 bilhões acima dos US$ 852 bilhões em que a OpenAI foi avaliada no round de março, e a poucos pontos da marca trilionária que apenas três empresas de capital aberto cruzaram: Nvidia, Apple e Microsoft.
Receita correndo rápido
O contraste com a tese de bolha repetida desde 2024 está na receita. A Anthropic disse a investidores que o run rate anualizado, métrica que multiplica a receita do mês mais recente por doze, passou de cerca de US$ 10 bilhões em junho de 2025 para próximo de US$ 47 bilhões em maio de 2026. A projeção interna mostrada à Série H aponta US$ 50 bilhões até o final de julho. Em uma janela de doze meses, a empresa multiplicou por quase cinco a base de receita anualizada.
A receita vem de duas frentes que se reforçam. A API empresarial roda em Anthropic, AWS e Google Cloud, e fechou alianças globais como a integração do Claude na plataforma Digital Gateway da KPMG, anunciada em 19 de maio, que projeta o modelo nos 276 mil consultores da firma em 138 países. O Claude Code, ferramenta paga para times de engenharia, virou linha de receita relevante depois da entrega de subagentes paralelos em maio. A combinação foi o que sustentou o salto de um run rate de US$ 9 bilhões no final de 2025 para o patamar atual.
A corrida do IPO
A OpenAI também se prepara para protocolar abertura de capital com Goldman Sachs e Morgan Stanley, segundo a Reuters, mirando um debute em setembro. A diferença é que a Anthropic chegou primeiro e o fez em modo confidencial, recurso aberto pelo Jumpstart Our Business Startups Act que esconde o S-1 do público até que a empresa decida lançar o roadshow. Os números financeiros completos só virão à tona se e quando a oferta avançar.
A presença simultânea de duas ofertas próximas ao trilhão testa o apetite institucional. Em março, a Anthropic recolheu US$ 30 bilhões em três horas em um round secundário, e a Série H foi sobrescrita por ampla margem. Analistas de sell-side alertam para o efeito de absorção: uma colocação primária superior a US$ 30 bilhões consome capital de pensão e de fundos soberanos que costuma ser distribuído ao longo de meses. Não significa que a oferta falha, significa que outros IPOs do trimestre vão sofrer fila.
Como o mercado lê isso fora dos EUA
Para a União Europeia, a abertura de capital transforma o que era uma startup privada com governança opaca em emissora sujeita a divulgações trimestrais. Reguladores em Bruxelas, que aplicam o AI Act a partir de 2 de agosto, ganham um manancial de dados sobre capacidade computacional contratada, receita por tipo de modelo e governança interna que hoje só conseguem por solicitação direta. A AI Office em Bruxelas já indicou que pretende usar disclosures de mercado como insumo para investigações.
Na Índia, onde TCS e Infosys reduziram contratações em 2026 sob pressão da automação por IA, a perspectiva é diferente. A Anthropic pública precisará bater metas trimestrais. Tem duas alavancas óbvias: subir preço, improvável no curto prazo dada a guerra com o GPT-5.5, ou ampliar uso captativo via Claude Code, substituindo squads humanos terceirizados. Os centros de delivery indianos que hoje vendem horas-homem em tarefas que rodam em Claude vão precisar renegociar contratos sobre quem captura a economia gerada.
A pergunta aberta nesta semana não é se a Anthropic vai a mercado. É se a OpenAI consegue manter o ritmo de captação privada com a concorrente já listada e operando sob o regime da SEC.