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ASML eleva projeção de 2026 pela segunda vez e coloca teto de € 45 bi no ano da IA

Interior de sala limpa da ASML de madrugada, com máquina de litografia EUV e dois técnicos em trajes de proteção.

Com € 9,3 bi em receita no 2T e margem bruta acima do topo, a ASML subiu o guidance de 2026 para € 43-45 bi e sinalizou que a capex de IA ainda não fez pico.

Os números que forçaram a revisão


A ASML fechou o segundo trimestre com receita líquida de €9,3 bilhões e lucro líquido de €2,9 bilhões, com margem bruta de 54,0%, ambas as métricas acima do topo da própria orientação. O CEO Christophe Fouquet elevou o guidance de receita para 2026 para uma faixa de €43 bilhões a €45 bilhões, contra a projeção anterior de €36 bilhões a €40 bilhões. A margem bruta esperada foi ajustada de 51-53% para 54-56%. É a segunda revisão para cima em 2026, sinal difícil de ler como sazonal.


Fouquet foi direto no comentário anexo aos resultados: "Investimentos em IA e o avanço contínuo das tecnologias de IA estão impulsionando a demanda por chips lógicos e de memória avançados." A companhia informou ainda que planeja adicionar 30% de capacidade em low-NA EUV para 2027, sobre uma base de aproximadamente 65 sistemas em 2026, com nova ampliação de 30% em estudo para 2028. Nos scanners DUV de imersão, a expansão para 2027 também é de 30% sobre a base de cerca de 130 sistemas.


O que a segunda revisão significa em cadeia


ASML é, na prática, o único fornecedor global de litografia EUV, o que a torna indicador antecedente de qualquer aceleração de capex no upstream da IA. Quando a companhia sobe guidance duas vezes no mesmo ano, os clientes já assinaram pedidos que não se justificariam sem demanda plurianual estável do lado de silício. Traduzido: TSMC, Samsung Foundry, SK Hynix, Micron e Intel entregaram à ASML a garantia contratual que a Nvidia, Google, Amazon, Microsoft, Meta e agora a Anthropic entregaram a eles.


Isso reordena o debate sobre bolha. A tese do "AI capex bubble" ganhou peso no primeiro semestre com base em números do lado gastador, com capex de hyperscaler projetado próximo de US$ 400 bilhões para 2026 segundo estimativas do Dell'Oro Group. O que a ASML mostra é o lado abastecedor: já vendeu, já entrega, já cresce. Bolha do lado da demanda pode não secar até 2027 justamente porque a oferta a jusante está travada por lead times de 18 a 24 meses em equipamento crítico. A lógica é direta: o piso da capex de IA passa a ser definido por quantas máquinas EUV a fábrica de Veldhoven consegue empacotar por ano.


Onde o dinheiro pousa fora da Holanda


A leitura por país vale a pena. Taiwan segue como maior comprador da ASML, com a TSMC absorvendo o grosso da capacidade EUV para produção em N3 e N2 que hoje serve Nvidia, AMD, MediaTek e a linha interna da Apple. Coreia do Sul entra com Samsung Foundry para 2nm e SK Hynix para HBM4, esta última crítica para os aceleradores H200 e B200 da Nvidia. Estados Unidos concentra a demanda da Intel para nó 18A em Ohio e Arizona, além da Micron para memória HBM em Boise e no estado de Nova York. Japão sobe na fila com Rapidus em Chitose e o TSMC Kumamoto fab.


Para o mercado brasileiro, o impacto é indireto mas mensurável. Nenhuma etapa de fabricação avançada roda no Brasil, mas o preço de GPUs importadas por bancos, hyperscalers regionais e centros de HPC de mineradoras, Petrobras e universidades federais é atado ao ciclo de escassez determinado por essa mesma capacidade EUV. Enquanto a ASML expandir devagar, servidores H200 e B200 continuarão sendo racionados pela Nvidia, e o CFO de qualquer datacenter em Fortaleza ou Camaçari continuará mirando 2027 para a ampliação real.


O que ainda pesa contra


Existe leitura oposta que merece registro. O crescimento da ASML depende de os clientes de fato precisarem de 30% mais capacidade EUV em 2027, e várias vozes no equity research europeu notam que uma revisão para baixo em capex de qualquer um dos três grandes hyperscalers em resposta a demanda de IA mais fraca destruiria a matemática da atual orientação em um único trimestre. A economia é reflexiva: ASML sobe guidance porque hyperscaler encomenda porque projeta clientes de IA que ainda não pagaram a conta cheia. O primeiro elo a quebrar arrasta a corrente inteira.


Ainda assim, hoje a evidência é do lado da confirmação. Segunda revisão de guidance no ano, margem bruta subindo, capacidade sendo expandida em duas linhas de produto, CEO nomeando IA por nome no material oficial da companhia. Quem quiser apostar contra tem que apontar qual dos três grandes vai cortar capex primeiro, e nenhum candidato aparece na chamada.

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