Análise Principal
Mercados6 min

IBM perde 25% no pior dia da história depois que CIOs migram orçamento de software para servidor

Escritório executivo moderno vazio em Armonk com terminal Bloomberg mostrando gráfico intraday em vermelho e planilhas impressas espalhadas sobre uma cadeira de couro.

Krishna disse que os clientes remanejaram capex nas últimas semanas de junho. ServiceNow caiu 6,4%, Workday 9,2% e Accenture 3,7%. É o SaaS pagando o preço da corrida por GPU.

A IBM perdeu cerca de 25% de valor de mercado nesta terça, 14 de julho, no pior pregão único da história da companhia. O gatilho foi a divulgação prévia dos resultados do segundo trimestre em carta pública de Arvind Krishna a acionistas. Receita de US$ 17,2 bilhões contra consenso de US$ 17,85 bilhões e EPS ajustado de US$ 2,27 contra US$ 3,02 esperados.


Krishna descreveu, sem eufemismo, o que aconteceu no fluxo de fechamento do trimestre. "Nas últimas semanas de junho, vimos os clientes deslocar o gasto de capex do trimestre para servidores, armazenamento e memória para garantir infraestrutura em oferta restrita antes dos aumentos de preço esperados", escreveu na carta. "Embora tivéssemos antecipado algum impacto de cadeia de suprimentos em nossas expectativas, não antecipamos a magnitude da repriorização de capex." Uma segunda frase resume o ponto que soou pior no pregão: "Estas condições exigem execução perfeita, e neste trimestre falhamos."


O contágio para o resto do software foi imediato. ServiceNow caiu 6,4%, Workday recuou 9,2%, Accenture cedeu 3,7%. Adobe e Appian também fecharam em baixa. A queda combinada dessas ações apagou dezenas de bilhões de valor de mercado em um único pregão. Para efeito de escala, o recuo da IBM superou o pior pregão anterior da companhia, em 19 de outubro de 1987, quando a ação recuou 23,7%.


O que a carta de Krishna admite sem dizer


O diagnóstico embutido na nota é mais crítico para SaaS do que para a IBM. A repriorização citada não é do orçamento total de TI, é da composição desse orçamento. CIOs estão pegando dinheiro que iria para renovação de licenças SaaS e contratos de consultoria e realocando para GPU, storage NVMe e memória HBM. É o mesmo balanço agregado, com fatias diferentes.


O ponto tem consequência prática para os próximos trimestres. Deals grandes que Krishna disse não terem fechado no timing esperado repovoam o pipeline do segundo semestre, mas apenas o subset que não migrar definitivamente para outros vendedores. Analistas de sell-side reagiram no mesmo dia com múltiplas casas ajustando preço-alvo para ServiceNow e Workday em baixa, ainda que sem revisar a tese de longo prazo dos dois nomes.


Onde a rotação aparece no resto do mundo


Para as consultorias, o efeito é mais grave que para o SaaS puro. Accenture recuou 3,7% porque o consenso já entendia que parte relevante da receita de "AI transformation" vinha da consultoria conectada aos deals de software que a IBM não fechou. Capgemini e TCS não estavam no pregão americano no mesmo dia, mas o operador de derivativos em Paris e Mumbai começa a precificar o mesmo desconto para os próximos trimestres.


Em Frankfurt e Tóquio, a leitura é sobre o próprio SAP. A empresa alemã divulga resultados em duas semanas e é o único fornecedor de ERP com escala comparável à da Oracle. Se a repriorização citada por Krishna atinge o ERP do jeito que atingiu o middleware da IBM, o setor perde a última âncora de crescimento previsível. Se o SAP passar ileso, a tese muda: o problema não é software corporativo, é IBM.


O contra que Wall Street não colocou no press


Existe uma leitura menos catastrófica que não apareceu nas notas de sell-side. Todo o argumento de Krishna, se lido pela ponta oposta, é uma antecipação temporal, não uma perda de demanda. Clientes que hoje priorizam servidor ainda vão precisar do software que roda em cima do servidor. Se a leitura for essa, o SaaS não perde budget, apenas o recebe seis a nove meses depois. A tese exige, no entanto, que a fila de infraestrutura seja resolvida sem que os clientes reavaliem o gasto total de TI, o que depende da tal execução perfeita da cadeia de supply. Foi essa mesma execução perfeita que Krishna admitiu não ter tido.


O detalhe operacional que ninguém do sell-side citou é a exposição de contratos legados de mainframe da IBM. Os deals que não fecharam no trimestre em transações plurianuais estão em renegociação, e a lista inclui bancos e seguradoras europeias que operam z/OS, além de operações regionais no Brasil e no México que ainda rodam workloads críticos em ambiente mainframe. Se a próxima janela de renovação puxar o mesmo comportamento, a queda de 25% desta terça pode não ter sido a última. A comparação histórica que analistas colocaram no chat privado é a de 2014, quando a IBM caiu 8% em um único dia por outro motivo estrutural. A diferença é que, naquele ano, a rotação era para nuvem. Nesta rodada, é para o hardware que faz a nuvem rodar.

Análise Principal