JPMorgan corta 30% a 40% em áreas específicas com IA; Goldman diz que não vai imitar

Dimon detalhou os cortes na teleconferência de Q2. Solomon, da Goldman, foi ao ar dizer que produtividade não precisa reduzir quadro. A conta de quem paga fica no ar.
Jamie Dimon disse a analistas nesta terça, 14 de julho, que a inteligência artificial já cortou entre 30% e 40% do quadro em áreas específicas do JPMorgan. A revelação veio na teleconferência de resultados do segundo trimestre, em que o banco reportou receita de investment banking de US$ 3,3 bilhões, alta de 30% em relação ao ano anterior, e um salto de 41% no lucro líquido.
O CEO não nomeou as divisões afetadas, mas afirmou que os empregados dispensados foram, na maioria, realocados internamente. "Temos plena expectativa de que teremos enorme eficiência em partes específicas da companhia", disse Dimon, segundo transcrição da chamada. Ele acrescentou, no entanto, que o ganho de produtividade deve ficar principalmente com o cliente, não com a margem do banco.
Jeremy Barnum, CFO do JPMorgan, entrou em detalhe sobre a economia real da adoção. Os custos com tokens dos modelos de fronteira ainda são "triviais" em 2026 e devem crescer significativamente no segundo semestre. Barnum foi ao ponto sobre o uso indiscriminado dos modelos mais caros: "Você realmente não precisa do modelo de ponta absolutamente caro para resumir um relatório de analista."
A voz contrária: Goldman
Do outro lado da mesa, David Solomon disse à CNBC no mesmo dia que a IA aumenta a produtividade dos funcionários mas não deveria afetar o quadro. A Goldman entregou receita de US$ 20,3 bilhões no trimestre, recorde da instituição, com investment banking em US$ 3,4 bilhões e um pipeline de M&A anunciado de US$ 1 trilhão no semestre. Solomon atribui o resultado à demanda por financiamento de data centers, semicondutores e infraestrutura energética. É o retrato de um banco vendendo picareta enquanto o outro fala em corte.
A divergência tem consequência. Solomon é hoje a voz mais visível de Wall Street defendendo que produtividade adicional não implica menos gente. Sua tese repousa em uma leitura de expansão: se a atividade dos clientes cresce, a IA absorve o volume adicional em vez de eliminar postos. Dimon adota o oposto e admite o efeito de substituição, ainda que reduza o impacto ao dizer que o ganho será entregue ao cliente.
Citi cai 5% mesmo com trimestre recorde
O mercado deu o próprio veredicto sobre a economia da IA no setor. Citigroup superou todas as estimativas de lucro do trimestre e reportou US$ 25 bilhões, a maior receita em uma década, com um novo programa de recompras de US$ 30 bilhões. A ação caiu 5%. O motivo foi a fala de Jane Fraser sobre antecipar cortes e investimentos em tecnologia, o que dilui a promessa de eficiência operacional no curto prazo. Fraser tem sido pública sobre o que chama de "duas corridas de IA": uma ofensiva, para receita e experiência do cliente, e uma defensiva, contra fraude e crime financeiro.
Wells Fargo repetiu o padrão. Superou o consenso em receita e lucro, com US$ 22,6 bilhões e EPS de US$ 2,00 contra US$ 1,72 esperado, e a ação recuou 3% depois de Charlie Scharf sinalizar mais investimento em IA generativa e automação.
O que o resto do mundo lê nisso
Em Mumbai, TCS e Infosys observam com cuidado. A Índia sedia os maiores centros de captive-BPO dos grandes bancos globais, e o encolhimento de áreas específicas em Nova York, ainda que compensado por realocação interna, tende a chegar aos hubs de delivery antes de chegar às sedes. Em Londres, a mesma tese pesa sobre HSBC e Barclays, que reportam resultados nas próximas semanas com o mesmo dilema sobre onde declarar o efeito da IA. Em Tóquio, MUFG e Mizuho ainda não tocaram publicamente no assunto de headcount, e é essa a próxima conversa que analistas de sell-side esperam.
O que Dimon admitiu e Solomon negou é a mesma pergunta que Deutsche Bank, UBS e Nomura terão de responder em suas próximas teleconferências. Se a resposta for a de Dimon, o próximo ciclo de corte no setor financeiro tem endereço definido: back-office, operações, análise júnior de crédito. Se for a de Solomon, o setor cresce em volume sem crescer em quadro. Nenhum dos dois retratos oferece consolo aos analistas de research que perguntam a Barnum se vale investir no modelo mais caro para resumir uma nota.
O paradoxo é que quem mais paga por essa história hoje não é a folha de pagamento, é o acionista. Dimon promete o ganho ao cliente, Fraser adianta despesa, Scharf reforça capex. A margem que Wall Street imaginava em 2025 para o balanço de 2027 continua no colo de quem escreve o próximo cheque para OpenAI e Anthropic.