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KPMG vê receita cair pela primeira vez em anos enquanto IA reescreve o backoffice das Big Four

Sala de sócio sênior de firma Big Four em Londres tarde da noite com cadeira de couro vazia afastada de escrivaninha com fichários de auditoria empilhados e página aberta com marcação a lápis vermelho em linha de variância

A queda de 1% no faturamento anual da KPMG UK e as demissões coordenadas entre as quatro grandes de auditoria marcam o momento em que a série de análises do setor chega ao andar mais exposto: o de conferência de números.

A KPMG UK divulgou em 24 de agosto queda de 1% na receita anual, para £2,5 bilhões (cerca de US$ 1,79 bilhão) em seu ano fiscal de 2026. É a primeira retração significativa da firma britânica em vários exercícios e chega no mesmo trimestre em que PwC, EY e Deloitte anunciaram redução de quadro. A justificativa oficial diverge nas notas de rodapé, mas o vetor comum aparece em toda transcrição: agente de IA está fazendo em segundos o que sênior associate britânico fazia em três dias.


A KPMG já havia cortado cerca de 10% da área de corporate services no Reino Unido, aproximadamente 200 postos, no primeiro semestre. A PwC abriu programa de rescisão voluntária focado em sênior associates e managers da auditoria britânica, sem número público de saídas. Somadas às cerca de 400 saídas que a KPMG conduziu depois do banimento de contratos governamentais britânicos e à onda anterior de reestruturação na Deloitte, o setor entrou em contração líquida de headcount pela primeira vez desde o boom pós-pandemia.


Este texto continua a série do The New Times sobre como IA está redesenhando as carreiras que sustentam o profissional services global. Depois de olhar consultoria estratégica e bancos, o próximo andar exposto é o de auditoria, e o dado da KPMG marca o corte.


Por que a auditoria caiu primeiro


O andar de auditoria concentra a tarefa que os agentes de IA fazem melhor hoje. Extração de dado estruturado de nota fiscal, teste de amostragem, reconciliação de saldo, verificação de política contra tabela de exceção. É trabalho tokenizável, com resposta certa ou errada, com histórico volumoso para fine-tuning. Deloitte, EY, PwC e KPMG estão escalando agentes em auditoria, tax e advisory em paralelo, e o cronograma interno de cada uma converge em janela de doze meses para automação de boa parte do teste substantivo.


O efeito na pirâmide é violento por construção. O contrato de auditoria historicamente pagava sênior partner com margem gerada por exército de associates cobrando hora bilhável. Se o associate vira operador de agente, a hora cobrável cai, o preço do engajamento cai e a firma precisa demitir para preservar margem por partner. É o mesmo mecanismo que a série já descreveu para consultoria estratégica e para banco, agora com uma variável adicional: o regulador da auditoria acompanha em tempo real.


O contra-argumento tem nome


O argumento oposto merece atenção honesta, e a análise mais dura veio de dentro do setor jurídico. Quando a Baker McKenzie anunciou o corte de entre seiscentas e mil funções de back office em fevereiro citando IA, uma leva de comentaristas legais argumentou que a firma estava usando IA como boi de piranha para reestruturação motivada por perda de rentabilidade e por overhiring pós-pandemia. Um artigo do Above the Law em fevereiro fez essa argumentação em detalhe e a Law360 Pulse voltou ao tema em julho, dizendo que ainda é prematuro atribuir o ciclo de demissões do serviço profissional predominantemente à IA.


A evidência que enfraquece a tese central do texto está aí. Auditoria e consultoria contrataram acima da demanda entre 2021 e 2023 e vinham operando com folga incomum de banco de horas. Parte dos cortes de 2026 corrige esse excesso mesmo em um cenário sem qualquer agente rodando. A distinção que o debate raso mistura é a que separa uma correção cíclica de headcount de uma erosão estrutural do modelo de pirâmide. As duas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo, e a segunda é a que vai mudar o negócio.


O ponto que só aparece no organograma


O ponto que a comunicação oficial das Big Four ainda não coloca em voz alta é o do funil de talento. Se o teste substantivo for automatizado, o associate de primeiro ano deixa de fazer o trabalho que treina o senior manager de daqui a oito anos. É o mesmo alerta que Debasish Patnaik, sênior partner e líder da QuantumBlack AI da McKinsey, fez em relação a bancos, dizendo que classes de junior analyst estão sendo reduzidas em até dois terços. A auditoria carrega essa dinâmica com uma complicação extra: a norma profissional exige um mínimo de horas supervisionadas para credenciamento de auditor.


Onde a leitura importa fora de Londres


No Reino Unido, a queda da KPMG UK é âncora e sinal, e o Financial Reporting Council vem acompanhando de perto o efeito da automação em qualidade de auditoria em firmas listadas. Nos Estados Unidos, PCAOB tem discussão paralela e as afiliadas americanas das Big Four testam a mesma pilha de agentes com menor pressão regulatória por enquanto. Na Índia, sede das Global Capability Centers de todas as quatro, o efeito é duplo. Uma parte do trabalho que voltou de offshore para automação apaga vagas em Bangalore e Gurgaon; outra parte reforça engenharia de plataforma que o próprio agente exige, elevando o piso salarial de perfis técnicos.


No Brasil, onde as quatro grandes de auditoria operam com pirâmide semelhante e concentram trabalho em São Paulo, Rio e Belo Horizonte, a pressão chega por dois canais. As tabelas de honorários das big audits brasileiras já estão sob revisão por clientes multinacionais que replicam preço acordado no exterior. E o pipeline de trainee, historicamente uma das poucas portas de entrada estruturadas do mercado corporativo, começa a encolher.

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