Nvidia projeta 70% de crescimento em 2028 e admite que a demanda excede a capacidade

Receita da Nvidia dobra para US$ 96,2 bilhões no trimestre, Data Center salta 117% e Jensen Huang afirma que a companhia não tem chip suficiente para atender à demanda por Blackwell Ultra.
Blackwell Ultra leva Data Center a US$ 89 bilhões
A Nvidia reportou US$ 96,2 bilhões em receita no segundo trimestre fiscal de 2027, encerrado em 26 de julho, alta de 18% frente ao trimestre anterior e de 106% em doze meses. O número superou em US$ 5,2 bilhões o teto do próprio guidance de US$ 91 bilhões dado em maio, quando a companhia ainda operava sob incerteza regulatória sobre exportações para a China.
Data Center passou a explicar 92% do faturamento consolidado e cresceu 117% em base anual, até US$ 89 bilhões. A receita hyperscale, gerada por AWS, Azure, Google Cloud, Oracle e Meta, mais que dobrou em doze meses. Colette Kress, CFO, atribuiu o salto sequencial de 18% ao ramp do Blackwell Ultra, arquitetura que sucedeu o GB200 e passou a compor a mistura de vendas a partir de maio. Margem bruta ficou em 75% GAAP.
Para o terceiro trimestre, a companhia guiou receita de US$ 108 bilhões, com margem ainda em 75%. A estimativa não incorpora nenhum faturamento de chips H20 na China, apesar da autorização de exportação obtida em julho. Segundo Kress, a Nvidia "não tem pedidos até o momento" da praça chinesa, e qualquer receita local no trimestre entraria como upside sobre o guidance.
"Compute é receita", diz Huang aos céticos
Jensen Huang usou a call para reposicionar o debate sobre o retorno do capex das big techs. "A IA chegou ao seu ponto de inflexão. Ela está fazendo trabalho útil, os tokens são produtivos e lucrativos. Agora, computação é receita", disse o CEO. A frase soou como contra-ataque direto ao ceticismo público de Michael Burry, que reportou short em papéis de infraestrutura de IA na mesma semana, e aos memorandos de Ed Zitron sobre bolha de IA.
Huang previu 70% de crescimento de receita para o ano fiscal de 2028, patamar bem acima do consenso do Street, que rodava em torno de 45%. Em seguida veio a ressalva mais relevante da call. "Nossa demanda está muito acima dos 70%", disse. O gargalo, segundo o executivo, migrou para o cronograma da TSMC e da SK Hynix, não para pedidos. A companhia estaria trabalhando com fornecedores para expandir capacidade, sem prever quando o desequilíbrio se fecha.
Sovereign AI vira o fio de 100% de crescimento
Kress abriu um segmento novo no relatório, batizado ACIE, que agrupa clientes corporativos diretos, neoclouds como CoreWeave e projetos soberanos. O bloco já responde por metade da receita de Data Center e cresce a 100% em base anual. A companhia estimou o TAM da geração Vera Rubin, prevista para o segundo semestre de 2027, em US$ 40 bilhões, contra US$ 25 bilhões do Blackwell e US$ 18 bilhões do Hopper.
Huang posicionou os projetos soberanos como o vetor mais duro da carteira, com contratos plurianuais firmes. "Este ano temos uma era dourada de novos laboratórios de IA e startups, com múltiplos laboratórios de fronteira escalando em paralelo e um ecossistema de modelos abertos vibrante", contrastou o executivo, comparando com 2025, quando um único cliente concentrava a maior parte da demanda de treinamento.
O gargalo agora é distribuir
Para o CIO em Frankfurt e o CTO em Seul, o número relevante da call não foi o topo de linha e sim a admissão de que a Vera Rubin já está comprometida com clientes soberanos ocidentais e três hyperscalers americanos. O cliente corporativo europeu que planejava capacidade própria em H100 no OVH ou no T-Systems provavelmente vai rodar workloads sob alocação de terceiros, não sob compra direta.
No Brasil, o efeito atinge dois canais imediatos. O primeiro é o preço unitário do H100 no mercado secundário, pressionado à medida que o Blackwell Ultra concentra os contratos novos com hyperscalers. O segundo é a demanda represada de bancos e consultorias que colocaram clusters de médio porte no roadmap de 2026, entre eles Itaú, Bradesco e as operações locais de Accenture e TCS. Com a Vera Rubin comprometida com soberanos até o fim de 2027, o cenário mais provável para essas instituições é migrar workloads para instâncias em Miami e Ashburn, onde AWS e Oracle ainda mantêm alocação contratada.
A leitura clínica é que o problema da Nvidia deixou de ser vender e passou a ser distribuir. A demanda existe, o capex hyperscale existe, e Huang tem uma resposta pronta ao cético de plantão. O que a call não respondeu é como a companhia atende à cauda longa do mercado corporativo, que assinou pipelines de IA no ano passado e agora entra numa fila que começa em Washington, Berlim e Tóquio.