Adiamento do IPO da OpenAI dispara ServiceNow, SAP e Workday e desafia a tese da 'morte do SaaS'

ServiceNow saltou quase 10% e SAP fechou em alta de 2,16% no XETRA depois de relatos de que o IPO da OpenAI escorrega para 2027. Workday e Datadog ganharam dois dígitos.
O mercado de software respondeu com um relief rally na segunda-feira (29) ao novo cronograma de IPO da OpenAI. ServiceNow fechou em alta de cerca de 10% em Wall Street, Workday subiu 9,2% e Datadog avançou 8,5%. Na Europa, SAP ganhou 2,16% no XETRA e fechou a €135,14, com o ADR cotado em Nova York em alta de 4,75%, a US$ 155,09. Adobe e Salesforce, que pesam nos índices de software desde o começo do ano, terminaram o pregão também em terreno positivo. O setor de software bateu o de semicondutores em cerca de sete pontos percentuais no dia.
O gatilho foi a reportagem do New York Times de 25 de junho citando três pessoas envolvidas nas deliberações da OpenAI segundo as quais a companhia tende a empurrar a abertura de capital para 2027. A escolha, pelo que descreveram, é entre listar ainda em 2026 com avaliação abaixo do trilhão de dólares ou esperar e tentar chegar nessa marca no ano seguinte. A OpenAI já tinha depositado em segredo o S-1 junto à SEC em 8 de junho, o que mantém a flexibilidade de antecipar caso o cenário melhore. A leitura dos bancos que assessoram o IPO é que a volatilidade recente em tecnologia e a estreia tortuosa das ações da SpaceX azedaram o apetite do investidor de varejo.
A leitura do analista, e a contra-leitura
Adam Tindle, analista da Raymond James, foi citado pelas mesas que reagiram primeiro: as ações que mais subiram foram exatamente as consideradas mais expostas ao risco de disrupção por OpenAI, com ServiceNow no topo. Para ele, o adiamento da listagem é proxy da dificuldade da empresa de provar economicamente o modelo agente-substitui-SaaS no horizonte de 12 a 18 meses, e isso libera múltiplo represado em quem vende workflow, ITSM e HCM.
A visão oposta é a de Brent Bracelin, do Piper Sandler, que vem escrevendo há semanas que a relação entre a saúde financeira da OpenAI e o caixa de SAP ou ServiceNow é mais frouxa do que o rali sugere. Para ele, o que pressiona os múltiplos do enterprise SaaS é a entrada da Microsoft Foundry com Claude e da Vertex com Gemini 3.5 Pro em GA, e não uma janela específica de IPO. Vale registrar que essas duas leituras não são incompatíveis: o rali pode ser real e ainda assim revertível na primeira semana em que a OpenAI conseguir mostrar que o ARR de seats corporativos virou caixa.
A Oracle e a contramão
No lado oposto do tabuleiro do dia, a Oracle perdeu cerca de 3% na sexta e abriu segunda no vermelho. A explicação que circulou nas notas de buyside é direta: a Oracle assinou contrato de capacidade de nuvem na casa dos US$ 300 bilhões com a OpenAI, e qualquer reposicionamento do calendário de IPO da contraparte mexe na curva de receita prometida. Para Larry Ellison, qualquer atraso de receita reconhecida da OpenAI é também atraso de validação da tese de hyperscaler tardio que sustenta Stargate. Para o mercado, é o lembrete de que a Oracle migrou para uma posição de fornecedor dependente, e não de plataforma neutra como os pares.
Onde o efeito chega
No Reino Unido e na Alemanha, o movimento bate diretamente nos comitês de capex de 2027 dos grandes bancos. UBS, Deutsche Bank e BNP Paribas vinham debatendo internamente se aceleravam migração de cargas de ITSM para concorrentes nativos de agentes ou se mantinham ServiceNow como camada de orquestração. O rali de segunda dá aos defensores da segunda opção uma narrativa quantitativa, embora frágil, para sustentar a tese diante de comitês de risco que pediam números.
No Brasil, o efeito é menos visível, mas existe. Itaú, Bradesco e Santander Brasil pagam contratos plurianuais a SAP e ServiceNow indexados em dólar, e o que sobrevive de pressão por renegociação esfria quando o vendor recupera múltiplo no dia. Em paralelo, a CI&T e a Stefanini, que disputam frentes de modernização SAP no varejo e na manufatura, ganham fôlego para precificar o trabalho sem ter que descontar agressivamente para acomodar a tese de canibalização da Microsoft Copilot.
O que o pregão de segunda mostrou não é que a tese de disrupção por IA morreu. Mostrou que o mercado precificou rápido demais um cronograma em que a OpenAI executaria sem atrito. Uma janela de 18 meses é tempo suficiente para SAP, ServiceNow e Workday entregarem seus próprios agentes em produção, e quem tinha posição comprada nessas teses fechou junho com folga.