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Tech e finanças perdem 28 mil vagas por mês nos EUA em 2026 e Wall Street para de disfarçar o papel da IA

Sala de analistas quase vazia em banco de investimento em Manhattan ao pôr do sol, três mesas iluminadas entre trinta, cadeira virada de lado, crachá corporativo virado para baixo sobre a mesa.

Reportagem da Bloomberg mostra recuo mensal de 28 mil vagas em financial-activities e information, único freio dentro de um mercado americano que ainda cria 113 mil postos por mês.

Os setores classificados pelo BLS como financial-activities e information vêm perdendo 28 mil vagas por mês em média em 2026 nos Estados Unidos, segundo dados oficiais compilados por reportagem da Bloomberg publicada nesta quarta-feira, 1º de julho. É a leitura estatística de um padrão que os CEOs de Wall Street pararam de disfarçar: bancos e big techs agora citam abertamente a inteligência artificial como fator de contração da folha, e o mercado de trabalho americano só permanece positivo, com criação média de 113 mil vagas mensais até maio, porque outros setores absorvem o buraco.


O consenso público que virou norma


Jamie Dimon, do JPMorgan Chase, disse que a IA "vai eliminar empregos". John Waldron, presidente do Goldman Sachs, descreveu o banco como "uma linha de montagem humana" madura para automação. Executivos de topo do Citigroup e do Barclays usaram formulações parecidas nos últimos seis meses. Somando os quatro bancos, são mais de 670 mil funcionários.


O recorte que mais chama atenção não é o topo, é a base. Debasish Patnaik, sócio sênior do QuantumBlack, braço de IA da McKinsey, afirma à Bloomberg que classes de analistas juniores estão sendo reduzidas em até dois terços em algumas instituições. Trata-se do posto de entrada da carreira em banco de investimento, o front office júnior, historicamente a maior porta de contratação de MBAs americanos e europeus. Não é uma nota de rodapé nas planilhas de headcount, é o pipeline de sucessão.


O que os dados ainda não sustentam


Aqui entra a leitura desconfortável para quem quer atribuir tudo à IA. A base dos 28 mil por mês combina information, onde Meta, Microsoft, Salesforce e Amazon Web Services fizeram cortes por motivos que precedem a agenda de automação, e financial-activities, onde a alta de juros já vinha desacelerando contratação antes de agentes chegarem às reuniões de comitê. Estudo do Stanford Digital Economy Lab mostra que o emprego caiu mais em funções onde a IA automatiza tarefas do que em funções onde a IA apoia o trabalhador humano. É correlação forte, ainda não isola o efeito.


David Parsons, do escritório Mishcon de Reya, aponta à Bloomberg que o middle office é o mais vulnerável nessa nova onda, porque a IA atinge cargos mais altos na cadeia do que as ondas anteriores. Ocupações de suporte administrativo, como atendimento, tellers de agência e processadores de sinistro, respondem por cerca de um quarto do emprego em financial-activities e permanecem como o próximo alvo natural. É o inverso do padrão dos anos 1990 e 2000, quando cortes começavam pelo chão da fábrica e demoravam a subir.


Europa, Ásia, Brasil e o discurso que não bate


O ajuste americano não replica linearmente em outros mercados. Em pesquisa Bloomberg publicada em 9 de abril, bancos europeus disseram esperar que o buildout de IA aumente headcount, não reduza, no horizonte de doze meses. A leitura pesa mais o custo político do corte e menos a métrica de produtividade, e vai na direção oposta do que Dimon e Waldron descrevem em Nova York. A distância entre os dois discursos é a variável que ainda falta ao número desta quarta.


Na Índia e nas Filipinas, os centros de operações offshore que os bancos americanos e europeus mantêm em Bangalore, Mumbai, Chennai e Manila são o primeiro destino tradicional do corte por agente. A operação humana antes conduzida por milhares de funcionários passa a rodar em pipelines de agentes coordenados por dezenas de controllers, o que não é apenas uma repriorização geográfica. É uma decisão de arquitetura organizacional que muda quem carrega o risco operacional em caso de falha e para qual jurisdição vai o passivo.


No Brasil, Itaú e Bradesco entraram em ciclo similar, com projetos de agentes em atendimento e crédito anunciados nas divulgações do primeiro trimestre. O discurso público de ambos permanece ancorado em redeployment e treinamento, distanciando-se da linguagem crua de Waldron. É uma diferença de tom que reflete regulação trabalhista mais restritiva, mas a métrica que os investidores começaram a pedir nos calls do segundo trimestre, custo por transação por FTE, está indo na mesma direção que a de Wall Street.


A implicação estratégica para quem senta na cadeira de CFO em consultoria ou banco é que a próxima onda de corte não vai preservar o middle office. Diferente de 2001 e de 2008, quando havia zona segura no meio da pirâmide, a versão 2026 do ajuste bate primeiro em quem faz análise, revisa contrato e prepara o material para o comitê de crédito. É esse plano de carreira que os candidatos a partner das Big Four e a analista do sell side precisam recalibrar antes do próximo orçamento.

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