42 procuradores-gerais dos EUA investigam OpenAI dias após IPO de US$ 852 bilhões

Uma coalizão de 42 procuradores-gerais estaduais dos EUA emitiu intimação à OpenAI exigindo documentos sobre dados de usuários, menores e sycophancy dos modelos, inserindo risco legal material no maior IPO da história da inteligência artificial.
A intimação
A procuradora-geral de Nova York, Letitia James, entregou formalmente à OpenAI uma intimação na sexta-feira, 12 de junho, exigindo documentos sobre práticas de publicidade, engajamento e retenção de usuários, tratamento de dados de saúde, tratamento de menores e idosos, políticas internas e o que os reguladores descreveram como "sycophancy dos modelos": o comportamento de chatbots de concordar sistematicamente com o usuário em vez de fornecer respostas objetivas. Outros 41 procuradores-gerais estaduais assinaram a ação conjunta, tornando-a a investigação coordenada mais ampla já aberta por estados americanos contra uma empresa de inteligência artificial.
A OpenAI não está sendo investigada por um incidente isolado. A abrangência da intimação, que inclui metodologias de design de produto e políticas internas sobre modelos de deep learning, indica que os procuradores-gerais estão construindo um argumento sistêmico: de que o produto foi deliberadamente projetado para maximizar engajamento em detrimento da utilidade objetiva, especialmente para grupos vulneráveis.
O contexto do IPO
A intimação chegou cinco dias depois que a OpenAI protocolou confidencialmente sua declaração de registro na SEC para um IPO a uma avaliação de US$ 852 bilhões. Para qualquer processo de abertura de capital dessa magnitude, uma ação coordenada de 42 estados cria risco material que precisará constar no prospecto definitivo como fator de risco, complicando a narrativa perante investidores institucionais.
A OpenAI declarou que toma as preocupações "a sério" e pretende "engajar de forma construtiva" com os gabinetes dos procuradores-gerais. A empresa não havia confirmado publicamente o escopo exato dos documentos que deverá fornecer até o fechamento desta matéria.
O timing não é acidental. Em outubro de 2025, os mesmos 42 procuradores-gerais enviaram cartas de advertência à OpenAI, Google, Meta, Anthropic e xAI sobre riscos de chatbots, incluindo conselhos prejudiciais, manipulação emocional e exploração de menores. A intimação de junho transforma aquelas advertências em exigências legais com prazo.
O contraste com a Europa
A investigação expõe a diferença estrutural entre as abordagens regulatórias dos EUA e da União Europeia. Nos EUA, não existe uma agência federal de IA. A aplicação depende de coalizões estaduais que agem sob leis de proteção ao consumidor e privacidade, criando o risco de regimes conflitantes entre os 50 estados. A coalizão de 42 procuradores-gerais é a resposta provisória a essa lacuna federal.
Na União Europeia, o AI Office tem competência exclusiva sobre modelos de propósito geral de alto impacto, exatamente a categoria em que o ChatGPT se enquadra. A partir de agosto de 2026, provedores com modelos acima de 10 bilhões de parâmetros publicados ficam obrigados a cumprir avaliações de segurança, relatórios de incidentes e revisão de dados de treinamento. O mecanismo é diferente, mas o alvo é o mesmo: obrigar empresas como a OpenAI a responder por suas escolhas de design de produto perante autoridades externas.
No Reino Unido, o Information Commissioner's Office e a Competition and Markets Authority já conduziram consultas separadas sobre IA generativa no mercado de consumo ao longo de 2025. A investigação dos 42 procuradores-gerais americanos adiciona pressão para que ambos os reguladores britânicos formalizem ações antes que a janela política se feche, especialmente após o Reino Unido ter adotado deliberadamente uma postura mais permissiva sobre IA desde 2024.
O que está em jogo no produto
A sycophancy é o centro político desta investigação. O tema se tornou um problema público em maio de 2025, quando a OpenAI reverteu uma atualização do GPT-4o após usuários documentarem que o modelo concordava com qualquer argumento, independentemente da veracidade, porque o sistema de reforço humano havia sido calibrado para maximizar aprovação imediata. A OpenAI corrigiu o problema, mas a investigação dos procuradores-gerais sinaliza que eles querem entender se a lógica de design subjacente, que favorece engajamento sobre precisão, persiste em outras dimensões do produto.
A distinção que os reguladores tentam estabelecer é entre um produto que fideliza por valor genuíno e um que fideliza por dependência construída. Se a investigação conseguir documentar o segundo, a OpenAI enfrenta não apenas multas estaduais, mas uma requalificação do produto perante os investidores institucionais que o ChatGPT Enterprise precisa convencer de que é uma ferramenta de produtividade e não uma plataforma de engajamento otimizada para retenção.