Estratégia5 minRedação

ERGO põe IA na diretoria e corta vagas de call center

Fundador da ERGO NEXT assume como primeiro Chief AI Officer da ERGO, do grupo Munich Re. A ERGO corta 1.000 vagas em call centers e sinistros até 2030 sem demissões forçadas, e a Allianz Partners fecha até 1.800 postos com a expansão da IA.

A Maximilianstraße em Munique durante o dia, com trânsito e pedestres em hora comercial.

Desde quinta-feira (1º), a diretoria executiva do grupo ERGO, braço de seguros diretos da Munich Re, tem um Chief AI Officer. O cargo é novo e foi entregue a Guy Goldstein, que fundou em 2016, em Palo Alto, a seguradora digital de pequenas empresas NEXT, comprada pela ERGO por US$ 2,6 bilhões em 2025 e hoje rebatizada ERGO NEXT. Goldstein acumula as duas funções e assume a responsabilidade pela implantação de IA em toda a cadeia de valor do grupo e em todos os mercados.

"Com a criação do cargo, sublinhamos nossa ambição estratégica de implantar inteligência artificial de forma sistemática ao longo de toda a nossa cadeia de valor", disse Markus Rieß, CEO da ERGO, no anúncio de 25 de setembro. Na mesma data, o grupo informou que Mark Klein, Chief Digital Officer desde 2016 e membro da diretoria desde 2024, deixa a empresa no fim do ano, a pedido próprio.

Em fevereiro, a ERGO informou que pretende reduzir cerca de 1.000 posições na Alemanha até 2030, em parte pelo uso crescente de IA em call centers e na regulação de sinistros. A empresa tem cerca de 15 mil funcionários no país.

O corte que não aparece como demissão

A ERGO diz que não fará demissões: a redução viria de cerca de 200 saídas por ano, entre aposentadorias e saídas voluntárias, sem reposição. A empresa também criou uma academia de requalificação para preparar cerca de 500 funcionários afetados para novas funções dentro do grupo.

Esse desenho muda o eixo da pergunta. Quem procura demissões em massa para medir o efeito da IA no trabalho administrativo vai encontrar pouco. O efeito aparece nas vagas que deixam de ser abertas: o atendente que se aposenta não é substituído, e o recém-formado que ocuparia aquela mesa nunca é contratado.

A Allianz seguiu caminho parecido, em escala maior. Em julho, Tomas Kunzmann, CEO da Allianz Partners, divisão de seguro-viagem e assistência, confirmou o corte de 1.500 a 1.800 vagas, atribuído à expansão do uso de IA, por meio de indenizações, aposentadorias antecipadas e programas voluntários. Os planos de saída voluntária já correm na Espanha, na França, na Alemanha, na Itália e no Benelux, numa divisão com mais de 22 mil funcionários.

O argumento contrário, com nome

Na terça-feira (29), o McKinsey Global Institute publicou estimativa de que cerca de 11 milhões de trabalhadores americanos podem precisar mudar de ocupação até 2035. O mesmo estudo projeta que a automação deslocará o equivalente a 36 milhões de postos na década, enquanto a expansão da economia criará demanda por mais de 40 milhões. "O desafio da próxima década é mobilidade, não escassez", diz o relatório.

A exigência, porém, é alta. Para absorver a realocação, cerca de 770 mil trabalhadores por ano teriam de trocar de grupo ocupacional nos EUA, 3,6 vezes a média histórica, segundo a McKinsey. Mais de 75% dos que precisariam mudar estão em três áreas: apoio administrativo, varejo e vendas, e transporte e logística. É exatamente o perfil do atendente de sinistros.

Há também evidência que enfraquece a tese do corte acelerado. Pesquisa da Anthropic com dados americanos não encontrou efeito sobre o desemprego nas ocupações mais expostas à IA, apenas sinais preliminares de contratação mais lenta entre trabalhadores de 22 a 25 anos. E os 1.000 postos da ERGO representam menos de 7% do quadro alemão, diluídos em cinco anos.

O erro oposto também existe. A Bain estimou em 29 de setembro que a IA precisaria gerar US$ 6 trilhões de receita anual até 2031 para justificar o investimento em data centers, contra no máximo US$ 1,8 trilhão dos produtos atuais. Uma seguradora não é um hiperescalador: a ERGO não financia data centers, compra capacidade. Para ela, a conta não depende de a bolha estourar, e sim de o custo por sinistro cair.

De Palo Alto para a Europa

O fluxo de conhecimento, neste caso, corre no sentido contrário ao habitual. A ERGO NEXT, que atende mais de 600 mil pequenas empresas americanas com subscrição e precificação automatizadas, passa a ditar o modelo para uma matriz alemã com 15 mil funcionários. Rieß disse que a ideia é levar essa experiência "para a diretoria do grupo, tornando-a disponível para a ERGO como um todo". A ERGO e a Allianz Partners cortam pelo mesmo caminho: aposentadorias antecipadas e saídas voluntárias ou negociadas.

O risco comum é visível dos dois lados do Atlântico. Se a porta de entrada das seguradoras encolher sem demissões visíveis, a primeira estatística a registrar o efeito será a de contratação de jovens, não a de desemprego. Quando um conselho de seguradora pedir ao novo Chief AI Officer a prova de retorno do investimento, a métrica mais honesta talvez não seja quantas pessoas saíram, e sim quantas deixaram de entrar.

Fontes

  1. ergo.comhttps://www.ergo.com/en/newsroom/media-information/2026/20260925-ergo-group-vorstand-first-chief-artificial-intelligence-officer
  2. insurancebusinessmag.comhttps://www.insurancebusinessmag.com/us/news/technology/ergo-next-chief-guy-goldstein-takes-new-ai-role-on-ergo-board-591322.aspx
  3. thelocal.dehttps://www.thelocal.de/20260218/german-insurer-ergo-plans-to-cut-1000-jobs-with-ai-inroads
  4. lifeinsuranceinternational.comhttps://www.lifeinsuranceinternational.com/news/allianz-partners-cut-1800-jobs/
  5. mckinsey.comhttps://www.mckinsey.com/mgi/our-research/Workforce-in-motion-Skills-and-pathways-to-future-jobs-in-the-United-States
  6. thenationalnews.comhttps://thenationalnews.com/future/technology/2026/09/29/ai-industry-needs-to-earn-6-trillion-by-2031-to-justify-data-centres

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