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Morgan Stanley corta 2.500 em ano recorde, mas o JPMorgan contratou mais: a conta de IA dos bancos

Pregão semivazio de um grande banco ao entardecer, a maioria das mesas apagada e um único funcionário guardando seus pertences em uma caixa.

A Morgan Stanley demitiu 2.500 após o melhor ano da história e a Bloomberg projeta até 200 mil vagas a menos nos bancos em cinco anos. Só que o JPMorgan aumentou o quadro em 2.000 no mesmo período: a IA está recompondo a folha dos bancos, não apenas encolhendo.

A Morgan Stanley cortou 2.500 vagas em 4 de março, cerca de 3% dos seus 83 mil funcionários, semanas depois de fechar o melhor ano da sua história, com receita recorde em 2025 e alta de quase 50% na banca de investimento no último trimestre. O banco atribuiu o corte a "prioridades de negócio, estratégia de localização e desempenho individual", sem citar IA de forma explícita. O pano de fundo, esse sim, é a inteligência artificial: a Bloomberg Intelligence projeta que os grandes bancos globais podem eliminar até 200 mil vagas nos próximos três a cinco anos, à medida que a tecnologia assume tarefas hoje feitas por gente.


Onde o corte dói e onde ele não chega


A projeção de 200 mil saiu de uma pesquisa com 93 diretores de tecnologia e informação, que estimaram um corte líquido médio de 3% do quadro; quase um quarto deles previu queda de 5% a 10%, com os maiores bancos à frente. O alvo é específico: retaguarda, meio de campo, operações, atendimento ao cliente e checagens de conformidade (KYC), justamente as funções repetitivas que um agente executa sem reclamar de hora extra. A própria Morgan Stanley preservou os consultores financeiros, a ponta que conversa com o cliente de patrimônio alto e fecha negócio. O banco corta onde a máquina já alcança e protege onde a relação humana ainda vale comissão.


A folha não está só encolhendo, está sendo trocada


Aqui o roteiro do colapso esbarra nos números. O JPMorgan, maior banco dos EUA, aumentou o quadro em 2.000 pessoas em 2025, com mais de um terço dos contratados indo para operações corporativas. Segundo dados da Accenture divulgados pela Fortune, 76% dos bancos esperam ampliar o time de tecnologia por causa da IA agêntica. Robert Seamans, diretor do centro de futuro da gestão da NYU Stern, é direto: "Se uma empresa grande diz que não vai contratar tanto por causa da IA, ou que está demitindo por causa da IA, acho que tem um pouco de cortina de fumaça nisso." A IA não está esvaziando os bancos, está mudando quem eles contratam.


No Brasil, o mesmo movimento já apareceu na ponta


Os quatro maiores bancos da B3 fecharam mais de 4,6 mil vagas no primeiro semestre de 2025, segundo os balanços do segundo trimestre. O Bradesco liderou, com 1.875 postos a menos, seguido por Santander (1.728), Banco do Brasil (615) e Itaú (505, dos quais 453 no Brasil). O detalhe está no que o Bradesco fez em paralelo: enquanto enxugava agências e retaguarda sob a bandeira de "ajustar o modo de servir", contratou mais de 2.500 profissionais de tecnologia. O caixa de agência sai, o engenheiro que treina o modelo entra. É a mesma troca de composição que a Bloomberg descreve lá fora, acontecendo aqui sem alarde.


O que muda para quem atende bancos


Para a consultoria de TI que vive de projeto bancário, a leitura é dupla. O orçamento de pessoal que migra de agência para tecnologia é, em parte, orçamento de fornecedor: alguém precisa construir, integrar e governar os agentes que assumem KYC, conciliação e atendimento. Mas o banco que internaliza 2.500 engenheiros é também o banco que vai depender menos de horas terceirizadas de desenvolvimento commodity. A janela que se abre não é a de vender braço, é a de vender o que o banco não monta sozinho com rapidez: especialização regulatória, segurança e a responsabilidade por um agente que erra com dinheiro de cliente. O corte de 2.500 na Morgan Stanley e a contratação de 2.000 no JPMorgan contam, juntos, a mesma história: o banco do fim da década terá menos gente segurando papel e mais gente vigiando máquina.

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