Alphabet eleva capex a US$ 205 bi e queima US$ 5,9 bi de caixa livre no trimestre

Google Cloud cresce 82% e margem operacional triplica para 35,6%, mas o mercado reage cortando 5% do papel depois que a companhia revisou o capex de 2026 pela terceira vez no ano.
A Alphabet reportou nesta quarta-feira, 22 de julho, receita de US$ 119,8 bilhões no segundo trimestre, alta de 24% em relação ao ano anterior, com Google Cloud puxando o desempenho com salto de 82% para US$ 24,8 bilhões. A margem operacional do braço de nuvem mais que triplicou no comparativo anual e fechou o trimestre em 35,6%. O backlog contratado no Cloud subiu cerca de US$ 50 bilhões no trimestre e atingiu US$ 514 bilhões. Ainda assim, a ação caiu 5% no after hours.
O gatilho da reação foi a revisão do capex. A companhia elevou o intervalo previsto para 2026 de US$ 175 a US$ 185 bilhões para US$ 195 a US$ 205 bilhões, a terceira revisão altista da meta em oito meses. Só no segundo trimestre, a Alphabet gastou US$ 44,9 bilhões em investimentos, o dobro do valor registrado no mesmo trimestre de 2025. O caixa livre ficou negativo em US$ 5,9 bilhões, contra geração positiva de mais de US$ 13 bilhões um ano antes.
"O aumento no intervalo se deve principalmente a uma aceleração na entrega de capacidade para atender à demanda crescente", disse Anat Ashkenazi, CFO da Alphabet, na teleconferência. Sundar Pichai reforçou que os investimentos em IA estão impulsionando crescimento em todo o negócio, com adoção corporativa do Gemini e volume mais alto em Search, Cloud e YouTube.
A conta agora inclui caixa negativo
A leitura do trimestre depende de qual eixo o investidor prioriza. Do lado operacional, a margem de nuvem em 35,6% derruba o argumento antigo de que o segmento não gerava lucro. O backlog de US$ 514 bilhões, com salto sequencial de US$ 50 bilhões, sinaliza contratos assinados que puxam receita reconhecível pelos próximos dois a três anos. Do lado financeiro, o caixa livre negativo é o primeiro sinal em uma década de que a Alphabet está gastando mais do que produz para financiar infraestrutura, e mostra que a companhia começou a captar mais dívida e a expandir capacidade de terceiros para preencher a fila de demanda que a capex própria não cobre no ano.
O número da Alphabet entra em um ciclo em que Amazon guiou cerca de US$ 200 bilhões de capex em 2026, Meta trabalha entre US$ 115 e US$ 135 bilhões, e Microsoft deve fechar acima de US$ 120 bilhões. Somados, os cinco maiores investidores em infraestrutura de nuvem e IA nos Estados Unidos rodam agora entre US$ 660 e US$ 690 bilhões em capex anual, cerca do dobro do patamar de 2025. A Alphabet passa a liderar o pelotão dentro do bloco de plataformas com receita comercial de cloud atrelada ao investimento, e mesmo assim precisou reconhecer que a capacidade contratada não chega no ritmo em que os clientes assinam.
Leitura para CIOs em duas geografias
Para diretores de tecnologia no Reino Unido e na Alemanha, o dado prático é a admissão pública de que a demanda por capacidade de Vertex AI supera o que a companhia tem hoje. Ashkenazi confirmou que parte do capex acelerado é compra de capacidade de terceiros para servir de ponte até que a construção própria fique pronta. Quem opera workloads de Gemini e Vertex em produção deve ver oferta mais flexível de reserved capacity nos próximos dois trimestres, e menos negociação vantajosa em contratos de três anos, com a Alphabet reduzindo desconto onde a fila já está formada.
Na Índia, onde Alphabet vem pressionando via Cloud contra a base instalada da AWS e a expansão da Azure, o número de US$ 205 bilhões muda o cálculo competitivo do canal de parceiros. Consultorias que dependem de TCS, Infosys e Wipro para migrar workloads corporativos de SAP e Oracle para o Google Cloud ganham uma justificativa concreta para acelerar migração, com a percepção de que a Alphabet consegue bancar o esforço de suporte técnico ao longo dos próximos 24 meses. O risco de contraparte, tema recorrente nos comitês de arquitetura desses clientes desde o Q1, se dilui.
O risco que a companhia não abordou na chamada é o denominador. Se a receita de Cloud continuar crescendo 80% ao ano, a capex se paga. Se a taxa desacelerar para 40% em 2027, o mesmo capex vira depreciação acumulada de US$ 200 bilhões esperando ROI que não chega no prazo. A Alphabet aposta que Gemini 3.6 Flash, lançado esta semana, mantém o funil aberto. Os próximos dois trimestres mostram se o mercado corporativo topa pagar pela capacidade que a Alphabet está comprando por antecipação.