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KBW lê compromissos de US$ 1,75 tri de BofA e Morgan Stanley como aposta de que o capex de IA passa de 2027

Mesa de analista sênior em banco de investimento em Manhattan com terminal Bloomberg, pitch book impresso e vista do Hudson à noite

Nota do analista Christopher McGratty publicada nesta segunda-feira interpreta iniciativas de infraestrutura dos dois bancos como sinal de longa duração para o ciclo de investimento em data centers.

A KBW publicou nesta segunda-feira uma nota em que interpreta os compromissos recentes de infraestrutura anunciados por Bank of America e Morgan Stanley como evidência de que o ciclo de capex em inteligência artificial não é o pico do ano, mas o começo de uma década de originação para os grandes bancos americanos. "Lemos os compromissos de prazo mais longo como sinais claros de confiança dos maiores credores de que este ciclo de capex tem espaço para rodar além de 2026", escreveu o analista Christopher McGratty.


O cálculo somado é grande. O Bank of America anunciou em 12 de agosto o Critical Infrastructure Finance Initiative, com meta de mobilizar US$ 250 bilhões em 18 meses até o quarto de julho de 2027. O Morgan Stanley havia largado dois dias antes com o U.S. Innovation Infrastructure Initiative, dimensionado em US$ 1,5 trilhão a serem facilitados em dez anos. A KBW acrescenta ainda a mobilização de mais de US$ 500 bilhões que a Nvidia articulou com Goldman Sachs para financiamento de compute.


Onde o dinheiro efetivamente vai


A leitura fina dos anúncios importa. O compromisso do BofA não é balanço próprio: conta cada mandato de bookrunner em bond de data center, cada advisory em compra de usina e cada co-investimento em otimização de grid. É pipeline de fee, não de risco. O do Morgan Stanley é mais ambicioso e mais diluído: engloba IA, quantum, semicondutores, ciber, aeroespacial, defesa, fármaco e minerais críticos, o que dá margem para o banco reclassificar operações que já faria.


O ponto econômico central da nota da KBW não é o número absoluto. É a duração. Bancos americanos vinham reportando desde o primeiro trimestre um crescimento de crédito comercial e industrial em dois dígitos, algo que se via pela última vez em 2022. A KBW argumenta que a maturidade média desse crédito subiu, e que esse alongamento só faz sentido se os credores acreditam que a demanda por eletricidade para servidor de IA continua depois de 2027.


A comparação que os mercados globais estão fazendo


Do outro lado do Atlântico, o Deutsche Bank e o UBS ainda não anunciaram iniciativas com nomes próprios em escala equivalente. O tíquete médio de originação para data centers na Europa continua concentrado nos hubs de Frankfurt, Amsterdã e Dublin, com forte participação de fundos de private credit em vez de balanço bancário. Frankfurt fechou o primeiro semestre com 640 megawatts de capacidade contratada nova, segundo o CBRE, mas o financiamento é majoritariamente estruturado.


O ângulo japonês é mais concreto. O MUFG anunciou em junho um programa de US$ 100 bilhões para investimento em modernização tecnológica de médio prazo, e o Mizuho ampliou a linha de crédito para operadores de data center domésticos em Chiba e Kansai. A diferença de escala com os EUA é grande, mas o mecanismo é o mesmo: bancos com balanço grande estão substituindo hyperscalers em parte da originação, e ganhando fee. Nomura estimou em relatório de julho que 12% do fee de investment banking do mercado japonês em 2026 deve vir de energia e infraestrutura para IA.


O que enfraquece a tese


A nota da KBW não é uniformemente otimista. McGratty reconhece que quase 40% das empresas medidas pela Bain & Company em sua pesquisa Automation and AI Pathfinder 2026 obtiveram economia com IA abaixo de 10%, quando o alvo declarado ficava entre 11% e 20%. Se o retorno enterprise em produtividade não acelerar, o consumo de tokens desacelera, e o argumento de duração dos empréstimos fica menos sólido.


O segundo contra-argumento é o que analistas do JPMorgan Asset Management vêm chamando de "circularidade de financiamento": Nvidia investe em hyperscaler que compra chip Nvidia, banco financia a construção do data center que hospedará o chip, e o mesmo hyperscaler contrata o banco para gerir o próximo bond. A conta fecha enquanto o crescimento de receita de IA continuar; se travar, o efeito cascata é o oposto.


A distinção que a discussão de investidores insiste em ignorar é entre hyperscaler operacionalmente lucrativo que financia capex com fluxo de caixa próprio e laboratório de IA que queima capital de risco para treinar modelo. BofA e Morgan Stanley estão originando para o primeiro grupo; a exposição ao segundo, mais frágil, continua pequena no balanço dos grandes bancos americanos. Isso separa este ciclo, num sentido importante, do ciclo de crédito privado de 2021.

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