DOJ abre inquérito antitruste sobre licença de US$ 20 bi da Nvidia com a Groq

O Departamento de Justiça dos EUA formalizou pedido de informações à Nvidia sobre um acordo de US$ 20 bilhões com a Groq. Reguladores querem saber se a estrutura escapou da revisão obrigatória de fusão.
O Departamento de Justiça dos Estados Unidos enviou à Nvidia um pedido formal de informações sobre o acordo de licenciamento de aproximadamente US$ 20 bilhões firmado no fim de 2025 com a startup Groq, segundo reportagem da Bloomberg publicada em 10 de setembro. O foco do inquérito é a estrutura do negócio: a Nvidia pagou por uma licença não exclusiva da tecnologia de chips da Groq e contratou vários executivos da rival, incluindo o fundador Jonathan Ross, sem submeter a operação ao processo de revisão de fusão previsto na Hart-Scott-Rodino Act.
Procuradores querem entender se o formato configura um acquihire reverso desenhado para evitar o crivo antitruste. A senadora Elizabeth Warren, que em 2024 já havia pedido investigação sobre a Nvidia, voltou a defender publicamente a linha de que licença mais contratação em massa é aquisição travestida. A Nvidia não comentou o pedido de informações até o fechamento desta matéria. A Groq afirmou apenas que continua a operar de forma independente.
O que muda no roteiro do M&A em IA
O caso é o primeiro teste jurídico direto do modelo que Microsoft, Google e Amazon usaram nos últimos dois anos. A Microsoft pagou US$ 650 milhões à Inflection AI em março de 2024 por uma licença e absorveu quase toda a equipe. A Google fez o mesmo com a Character.AI em agosto do mesmo ano, num acordo de US$ 2,7 bilhões. A Amazon executou o padrão com a Adept em junho de 2024. Nenhum foi tratado como fusão pelos reguladores dos Estados Unidos, do Reino Unido ou da União Europeia à época.
O padrão sobreviveu enquanto os órgãos antitruste ainda calibravam o que fazer com IA generativa. Isso mudou. A Federal Trade Commission concluiu em janeiro de 2025 um estudo sobre parcerias entre hyperscalers e laboratórios de IA que já sugeria a leitura de aquisição de facto. A Comissão Europeia, no relatório sobre concorrência em IA publicado em maio de 2026, listou o desenho licença mais contratação como prática a monitorar. A Competition and Markets Authority do Reino Unido está no meio de uma revisão do acordo Microsoft-Inflection sob a jurisdição do share of supply test.
O inquérito à Nvidia, portanto, não fica isolado. Se o DOJ decidir que a transação exigia notificação HSR, a Nvidia pode ser obrigada a desfazer partes do acordo, a ceder direitos de licença ou a vender parte do time da Groq. Um resultado desses reprecificaria todas as combinações acquihire pendentes, incluindo negociações em curso entre Meta e laboratórios menores de robótica.
Leitura para fora dos Estados Unidos
O caso importa em pelo menos três outras jurisdições. No Reino Unido, a CMA já sinalizou que pode aplicar o mesmo raciocínio ao licenciamento da Groq, dado que parte dos engenheiros contratados estava baseada em Londres. Na União Europeia, a Comissão pode invocar o artigo 22 do Regulamento de Concentrações mesmo com faturamento local abaixo do limiar, replicando o precedente Illumina-Grail de 2022. Em Bruxelas, o comissário Andreas Schwab é a voz mais ruidosa nessa direção.
Na China, a State Administration for Market Regulation observa o desenrolar com interesse duplo. Se o DOJ dificultar aquisições de talentos por parte dos gigantes americanos, laboratórios chineses como Baichuan e Zhipu ganham espaço para reter engenheiros. Ao mesmo tempo, a SAMR estuda replicar o teste HSR para operações locais, o que travaria consolidações no ecossistema da Alibaba e do ByteDance.
O ponto que tende a se perder no debate é o contexto financeiro. A Nvidia gerou US$ 165 bilhões em receita no ano fiscal 2026 e opera com margem bruta acima de 75%. Um pagamento de US$ 20 bilhões pela licença da Groq representa 12% do faturamento anual. Nenhuma companhia da fila de laboratórios independentes sobrevive sem alguma forma de saída para talentos. Se o DOJ vencer, o efeito prático não vai ser mais competição; vai ser menor liquidez para fundadores de IA, com deslocamento da inovação para jurisdições menos rigorosas. Fundos como a Andreessen Horowitz e a Founders Fund já estimam que 30% dos deals de IA em pauta para 2027 podem ser reestruturados por causa desse inquérito.