BNP Paribas assina 5 anos com Google Cloud para agentes de IA
O banco francês levará modelos Gemini ao assistente usado por mais de 65 mil funcionários do atacado, começando por memorandos de crédito. Dados sensíveis, segundo o CIO, ficam fora da nuvem pública.

O BNP Paribas assinou na quinta-feira (24) uma parceria de cinco anos com o Google Cloud que dá ao banco francês acesso à infraestrutura de nuvem pública do Google, ao Gemini Enterprise e aos modelos Gemini. O primeiro alvo é a área de Corporate & Institutional Banking (CIB), onde o banco pretende colocar agentes de IA para preparar memorandos de crédito corporativo, segundo o comunicado conjunto das duas empresas.
O acordo prevê a integração dos modelos Gemini ao LLM@CIB, o assistente de IA generativa interno da divisão, que segundo o comunicado já está disponível para mais de 65 mil funcionários. Depois do crédito, a lista de aplicações inclui vendas, trading, research e estruturação.
Nuvem pública, com uma fronteira declarada
O detalhe mais relevante para quem desenha arquitetura em banco veio da coletiva de imprensa, não do comunicado. Marc Camus, CIO do grupo BNP Paribas, disse a jornalistas que o contrato não representa uma migração em massa. "O fato de termos assinado este acordo com o Google não significa que vamos nos livrar da nossa infraestrutura on-premise", afirmou, segundo a Reuters.
Camus deu um exemplo concreto do que fica fora: as informações médicas mantidas pelas operações de seguros do grupo, classificadas como altamente confidenciais. Para o banco, a tecnologia do Google cabe em trabalhos menos sensíveis, como processamento de faturas e gestão de dados. O Google, por sua vez, afirmou que o BNP mantém a propriedade dos dados, que não serão usados para treinar, ajustar ou refinar os modelos da empresa.
O comunicado resume a lógica em uma frase: a abordagem do banco "começa pela necessidade do negócio", com a escolha da tecnologia caso a caso, dentro do arcabouço de segurança e governança da instituição.
Multimodelo, não exclusividade
O BNP não trocou de fornecedor. Segundo a Reuters, o banco vai continuar usando modelos de código aberto e manter a parceria com a francesa Mistral AI, distribuindo os provedores por aplicação. Em 2025, o grupo já havia renovado um acordo plurianual com a IBM Cloud para infraestrutura dedicada. O desenho que sai daí tem três camadas: dados críticos em casa ou em nuvem dedicada, modelos europeus onde soberania pesa, hiperescalador americano onde escala e custo pesam.
Esse arranjo responde a pressões que são sobretudo europeias. O regulamento DORA, em vigor desde janeiro de 2025, obriga bancos da União Europeia a mapear e gerenciar a dependência de provedores críticos de tecnologia, e a concentração em um único hiperescalador vira item de supervisão. Um banco que declara em público quais dados não sobem para a nuvem está, também, falando com o supervisor.
Onde o memorando de crédito é escrito hoje
A escolha do memorando de crédito como primeiro caso de uso não é neutra. É um documento longo, padronizado e revisado em várias camadas, produzido por analistas juniores e por equipes de apoio. Em grandes bancos europeus, parte desse trabalho de preparação e revisão fica em centros de serviços fora da sede. O BNP mantém operações desse tipo em Portugal e na Índia, e é nesses polos que a automação de rascunhos de crédito tende a aparecer primeiro como ganho de produtividade.
Nos Estados Unidos, a disputa é a mesma, com outro fornecedor por trás. Na temporada de balanços de julho, a CNBC destacou cortes de vagas associados a IA no JPMorgan e apontou o banco e o Goldman Sachs como os grandes beneficiários da tecnologia em Wall Street. O movimento do BNP coloca um grande banco europeu no mesmo ritmo, com uma diferença: a fronteira do que não vai para a nuvem foi dita em voz alta.
No Brasil, onde o BNP Paribas atua em banco de atacado, o acordo não traz mudança imediata anunciada. A leitura relevante para bancos e consultorias locais é de método. Na Febraban Tech deste ano, os CEOs de Itaú, Bradesco, Nubank, Santander, BTG e Caixa apresentaram metas de escala para IA e defenderam que decisões críticas sigam sob responsabilidade humana. O que o BNP publicou nesta semana é o outro lado da equação: a lista do que fica fora.
Para integradores e consultorias que vendem projetos de IA a bancos, o recado é direto. O contrato de cinco anos garante ao Google o assento, mas não o volume. O volume vai depender de quantos casos de uso passarem pela triagem de sensibilidade que Camus descreveu, e essa triagem é feita pelo banco, caso a caso.
Fontes
- googlecloudpresscorner.comhttps://www.googlecloudpresscorner.com/2026-09-24-BNP-Paribas-and-Google-Cloud-Announce-New-Partnership-on-Agentic-AI-and-Cloud-Innovation
- prnewswire.comhttps://www.prnewswire.com/news-releases/bnp-paribas-and-google-cloud-announce-new-partnership-on-agentic-ai-and-cloud-innovation-302888664.html
- money.usnews.comhttps://money.usnews.com/investing/news/articles/2026-09-24/bnp-paribas-to-keep-sensitive-data-off-public-cloud-despite-google-deal
- bloomberg.comhttps://www.bloomberg.com/news/articles/2026-09-24/bnp-paribas-cib-strikes-ai-deal-with-google-cloud-credit-memo-res