Goldman restringe Claude Code e GitHub a engenheiros e quants
Segundo a Bloomberg, orientação interna de outubro tirou ferramentas de programação com IA de traders e banqueiros. Banco cita produtividade e risco, quatro meses depois de seu CIO elogiar o vibe coding.

O Goldman Sachs restringiu o uso do Claude Code, da Anthropic, e das ferramentas de programação do GitHub, da Microsoft, a engenheiros de software e aos "strats", os analistas quantitativos do banco. Traders e banqueiros que vinham usando essas ferramentas perderam o acesso, segundo reportagem da Bloomberg publicada na segunda-feira (2), com base em uma orientação interna atualizada em outubro.
Nas mesas, as ferramentas tinham ganhado usos que nada tinham de engenharia: monitorar fluxos de negociação de clientes e produzir materiais escritos e gráficos. Parte dos traders, segundo a mesma reportagem, ficou insatisfeita com a mudança.
O que o banco disse
O porta-voz Nick Carcaterra citou "uma variedade de fatores, incluindo produtividade e gestão de risco". Segundo ele, o período inicial de acesso serviu para o banco avaliar casos de uso nas diferentes áreas, e as ferramentas agora ficam com quem está "mais bem posicionado para aproveitá-las no longo prazo". O Goldman não divulgou métricas de produtividade nem apontou um incidente específico que tenha motivado a decisão.
Quem perdeu o acesso tem como alternativa o GS AI Assistant, o assistente interno que o banco liberou para toda a força de trabalho, de mais de 46 mil pessoas, em junho de 2025. A ferramenta interna conversa com modelos de várias empresas, entre eles os da OpenAI, do Google e da própria Anthropic, mas dentro do perímetro controlado pelo banco.
A virada em quatro meses
A decisão contrasta com o discurso do próprio Goldman. Em julho, o CIO Marco Argenti elogiou publicamente o chamado "vibe coding", em que funcionários sem formação técnica descrevem em linguagem natural o programa que querem e a IA escreve o código. Argenti descreveu um fluxo em que a área de negócio montava o protótipo e o entregava a engenheiros para refinamento.
O recuo não é necessariamente uma contradição. Uma leitura defensável é que o banco fez exatamente o que diz: abriu a ferramenta, mediu, e concluiu que o ganho fora da engenharia não compensava o risco de código sem revisão rodando perto de dados de clientes e de posições. Um banco sistemicamente importante responde a supervisores que tratam qualquer modelo usado em decisão de negócio como objeto de governança, e um script escrito por um trader em uma tarde dificilmente passa por esse crivo.
A leitura oposta também tem base. Se a produtividade das mesas fosse claramente maior com as ferramentas, a resposta natural seria criar controles, não cortar o acesso. O fato de o Goldman não ter publicado nenhum número deixa as duas interpretações abertas, e quem quiser tirar da notícia uma prova de que a IA de programação "não funciona" fora da engenharia está lendo mais do que a evidência permite.
Nova York e Bengaluru
Nos Estados Unidos, a decisão vira referência para comitês de risco de outros bancos de Wall Street. O sinal que o Goldman manda é que a pergunta deixou de ser "quem pode experimentar" e passou a ser "quem responde pelo código que a ferramenta gera". Para fornecedores como Anthropic e Microsoft, isso significa contratos corporativos medidos por assentos de engenharia, não pela força de trabalho inteira.
Na Índia, o efeito é inverso. O escritório de Bengaluru é descrito pela imprensa do setor como o segundo maior polo de engenheiros do Goldman, atrás apenas de Nova York. Se o acesso às ferramentas mais poderosas fica concentrado em engenheiros e quants, o trabalho de transformar a ideia de um trader em código volta a passar por esses times, e o valor dos centros de engenharia offshore aumenta em vez de diminuir. Para consultorias que operam centros de entrega para bancos na Índia, a notícia reforça a demanda por engenheiros que saibam trabalhar com agentes de código, não a substituição deles por usuários de negócio.
Para o CIO de qualquer instituição financeira, o caso Goldman oferece um roteiro concreto: separar a ferramenta de uso geral, liberada para todos dentro de um perímetro controlado, da ferramenta que escreve e executa código, restrita a quem tem a obrigação de revisá-lo. O Goldman não publicou nenhum dado da fase de testes, e é esse silêncio que obriga cada concorrente a refazer o mesmo experimento por conta própria, com o mesmo custo e o mesmo risco.
Fontes
- bloomberg.comhttps://www.bloomberg.com/news/articles/2026-11-02/goldman-restricts-traders-and-bankers-from-using-some-ai-tools
- finextra.comhttps://www.finextra.com/newsarticle/48690/goldman-bans-traders-and-bankers-from-using-ai-coding-tools
- pymnts.comhttps://www.pymnts.com/news/artificial-intelligence/2026/goldman-sachs-bars-bankers-from-employing-some-ai-tools/
- techstrong.aihttps://techstrong.ai/agentic-ai/goldman-sachs-cuts-bankers-traders-off-from-ai-coding-tools-over-risk-concerns/
- seekingalpha.comhttps://seekingalpha.com/news/4662812-goldman-sachs-bans-traders-and-bankers-from-using-some-ai-tools-report