Deutsche Bank e UBS registram trimestres recordes enquanto começam a colocar número na IA

Os três maiores bancos da Europa continental somaram lucros recordes no 2T26 enquanto executivos atribuíram, pela primeira vez em chamadas de resultado, ganhos de eficiência mensuráveis à IA. O ciclo americano de demissões ainda não chegou a Frankfurt ou Zurique.
Deutsche Bank reportou lucro líquido de 1,9 bilhão de euros no segundo trimestre de 2026, o melhor resultado trimestral desde que o banco passou a reportar nesses moldes, com receitas de 8,5 bilhões de euros e 9% de crescimento em relação ao mesmo período de 2025. A mesma semana trouxe o resultado do UBS: lucro antes de impostos de CHF 3,9 bilhões, alta de 45% em relação ao segundo trimestre de 2025 e receitas de CHF 13,3 bilhões. BNP Paribas fechou o bloco europeu no dia 23 de julho com lucro líquido de 3,0 bilhões de euros, avanço de 33%. Três recordes num intervalo de seis dias.
O que diferencia esse ciclo de resultados dos anteriores não é só o tamanho dos números. É a linguagem dos executivos.
Quando a IA vira linha de resultado
Denis Roux, executivo responsável pela estratégia de tecnologia do Deutsche Bank, declarou na divulgação do 2T26 que a IA está reduzindo o tempo de conclusão de certas tarefas de dois anos para três meses. O banco melhorou seu índice de custo sobre receita para 63%, com meta declarada de ficar abaixo de 60% até 2028 por meio de automação e IA. Christian Sewing, CEO, disse que "a IA abre novas oportunidades de criar valor para os clientes e alcançar economias adicionais", mas não vinculou o resultado do trimestre ao uso de IA diretamente. Essa cautela vale notar.
No UBS, o banco encerrou o trimestre com 112 mil funcionários, queda de 4% em relação ao trimestre anterior. A redução decorre da integração do Credit Suisse, não de iniciativas de IA. O banco mencionou investimento contínuo em tecnologia, IA, ativos digitais e infraestrutura como motor de crescimento de longo prazo, sem atribuir ganhos específicos de produtividade ao uso de IA neste trimestre.
A confusão que vale desfazer
Há duas formas de banco ser "beneficiário do boom de IA" em 2026, e elas são categorias distintas. A primeira é ganhar com a corrida de capitalização das empresas de IA: bancos de investimento estão financiando a infraestrutura de IA por meio de dívida e emissão de ações, e os fees impulsionam as linhas de Corporate Finance e Markets. A segunda é ganhar eficiência com IA nos próprios processos internos, reduzindo custo por transação ou por hora trabalhada.
O UBS acelerou 45% seu lucro antes de impostos, mas a divisão de Investment Bank foi a que mais contribuiu, com resultado mais que dobrado na comparação anual. Isso é, em grande parte, a primeira categoria: fees de M&A e emissão de renda fixa ligados ao boom de investimentos em IA, não IA interna. A distinção importa porque, quando o ciclo de capex em IA se normalizar, as receitas de fees tendem a arrefecer antes de qualquer economia interna de custos via automação.
A própria cautela de Sewing sobre atribuição direta de lucro à IA reforça essa leitura: o CEO do Deutsche Bank, ao ser questionado sobre os drivers do resultado, deslocou a conversa para metas de médio prazo, não para o trimestre que acabou. O ganho de eficiência que Denis Roux citou refere-se a casos de uso específicos, ainda em fase de escalonamento, não ao balanço geral.
Frankfurt para Pune: onde a pressão chega primeiro
Para as consultorias e empresas de serviços que atendem esses bancos, o ponto de atenção não está em Frankfurt ou em Zurique. O Deutsche Bank mantém centros de desenvolvimento de software e operações tecnológicas em Pune e Mumbai. O UBS tem estrutura similar na Índia e na Polônia, herdada e ampliada após a absorção do Credit Suisse. É nessas estruturas de entrega que a compressão de ciclos de tarefa prometida pela IA tende a se materializar primeiro.
A Infosys, TCS e Wipro, que atendem bancos europeus como parceiros de outsourcing de tecnologia, escalonaram mais de 300 mil postos de trabalho para o Microsoft 365 Copilot até junho de 2026, segundo anúncio da Microsoft. Esse é o mesmo pool de capacidade que absorve parte da entrega de tecnologia desses bancos. Se o Deutsche Bank está reduzindo o tempo de certas tarefas de dois anos para três meses, as primeiras posições racionalizadas não estarão em Frankfurt: estarão nas linhas de analistas júnior nas unidades de entrega da Índia e da Polônia.
Não há anúncio público de cortes nesses centros de entrega por parte do Deutsche Bank ou do UBS neste trimestre. Mas a combinação de metas agressivas de custo sobre receita com ferramentas de IA que comprimem ciclos de tarefa aponta para o mesmo destino a que os bancos americanos chegaram primeiro.
O precedente americano, em câmera lenta
Morgan Stanley cortou 2.500 posições com IA no primeiro semestre de 2026. O JPMorgan implantou sua suíte de LLM para 200 mil funcionários. Nenhum banco europeu de porte equivalente anunciou algo comparável no mesmo período. Parte disso reflete regulação trabalhista mais rígida na Alemanha e na França, que torna cortes abruptos mais complexos e visíveis do que nos Estados Unidos. Parte reflete timing: os bancos europeus chegaram a essa conversa 12 a 18 meses depois dos americanos.
O detalhe que os três trimestres recordes revelam é que os bancos europeus já têm a lucratividade para financiar a transição. O que falta, por ora, é o anúncio.