Mercados5 minRedação

Barclays vai cortar 5.000 vagas e cita IA entre os motivos

Banco britânico elimina cerca de 5% do quadro em 2026, com 60% dos cortes em suporte, incluindo desenvolvedores. No mesmo dia, nota do Goldman argumenta que cortes por IA tendem a esperar a recessão.

Profissional leva caixa com objetos pessoais por corredor de escritório iluminado.

O Barclays vai encerrar cerca de 5.000 postos de trabalho ainda em 2026, perto de 5% do quadro, e colocou a inteligência artificial entre os motivos. O número saiu junto com o balanço do terceiro trimestre, divulgado em 22 de outubro, em que o banco britânico reportou lucro antes de impostos de £ 2,3 bilhões. Segundo a CFO Anna Cross, cerca de 60% das reduções recaem sobre funções de suporte, incluindo desenvolvedores de software, porque a IA está tornando as equipes mais produtivas.

O detalhe dos desenvolvedores é o que interessa a quem vende serviços de tecnologia. Engenharia de software costumava ser a área protegida dos programas de corte de custo dos bancos. No Barclays, ela entrou na lista.

A conta que o Barclays já tinha divulgado

O corte não surgiu do nada. Em 1º de outubro, a Anthropic anunciou a ampliação do contrato com o Barclays e informou que o banco espera ter 50% dos seus desenvolvedores usando o Claude Code até o fim de 2026, chegando à maioria dos engenheiros em 2027. No mesmo comunicado, o banco descreveu dois usos já em produção: um assistente interno adotado por mais de 16.000 funcionários, com mais de um milhão de consultas, e um sistema que classifica cerca de 120.000 e-mails por dia na área de Global Markets.

"Estamos caminhando para a IA como uma capacidade cada vez mais agêntica, embutida na forma como construímos, testamos, protegemos e operamos tecnologia", disse Craig Bright, co-COO do grupo, no anúncio de outubro. Três semanas depois, a mesma área aparece no plano de redução de quadro.

O CEO C.S. Venkatakrishnan, porém, evitou vender o corte como efeito direto de um chatbot. Segundo ele, as reduções vêm de anos de investimento em tecnologia e se concentram em funções operacionais. A IA, disse, é "a cobertura do bolo, não o bolo": o trabalho pesado está na infraestrutura que vem antes dela.

O contraponto do Goldman

No mesmo dia, uma nota do economista Joseph Briggs, do Goldman Sachs, ofereceu o argumento mais forte contra a leitura de que a IA já está esvaziando escritórios. Segundo reportagem da Fortune sobre a nota, Briggs estima que até 9% dos trabalhadores podem ser deslocados durante a transição para a IA, com outros 3% de efeito via contratações mais lentas, num horizonte de cerca de uma década. A parte relevante é o tempo: analisando décadas de dados, ele concluiu que a ruptura causada por automação é limitada quando a economia está saudável e acelera nas recessões.

Lido assim, o caso Barclays fica menos óbvio. Um banco com lucro trimestral de £ 2,3 bilhões cortando 5% do quadro em plena expansão contraria o padrão histórico descrito por Briggs, ou confirma que bancos sempre usaram ciclos de investimento em tecnologia para enxugar estrutura, com ou sem IA. O próprio CEO puxa para a segunda interpretação. A CFO, ao citar desenvolvedores, puxa para a primeira.

Há um dado que enfraquece a tese de substituição em massa: o Barclays não divulgou quantas das 5.000 vagas seriam diretamente atribuíveis a ganhos de produtividade com IA. Sem essa separação, qualquer número sobre "empregos destruídos pela IA" no banco é estimativa de terceiros.

Onde o efeito aparece fora do Reino Unido

O Barclays não está sozinho na Europa. O holandês ABN AMRO anunciou em 2025 a eliminação de cerca de 5.200 postos até 2028 e citou a IA como um dos fatores que permitem manter o nível de serviço com menos gente. A diferença é de cronograma: o ABN espalhou o corte por três anos, o Barclays quer concluir o seu ainda em 2026.

A Índia é o segundo mercado a observar. O Barclays mantém grandes centros de tecnologia e operações em Pune e Chennai, onde estão boa parte das funções de suporte e desenvolvimento que o banco agora descreve como alvo. Se o padrão de "menos desenvolvedores por causa da IA" se consolidar em centros cativos, o efeito chega também aos contratos com integradores indianos que dividem esse trabalho com os bancos, como TCS e Infosys, ambas parceiras da Anthropic em projetos para setores regulados.

Nos Estados Unidos, onde a estimativa de Briggs equivale a cerca de 15 milhões de trabalhadores, o argumento cíclico implica que os grandes cortes por IA ficariam represados até a próxima desaceleração. Se ele estiver certo, o Barclays é um caso adiantado, não o padrão. Se estiver errado, o banco britânico é o primeiro de uma fila.

Para consultorias e integradores, a pergunta útil não é se a IA vai substituir desenvolvedores de banco. É quem vai capturar a margem do trabalho que sobra. Se o cliente passa a medir produtividade por engenheiro com uma ferramenta que custa uma fração de uma posição, o preço por hora alocada deixa de ser a régua, e contratos de outsourcing de desenvolvimento passam a ser negociados contra o custo de uma licença.

Fontes

  1. cnbc.comhttps://www.cnbc.com/2026/10/22/barclays-ai-jobs-cuts.html
  2. bloomberg.comhttps://www.bloomberg.com/news/articles/2026-10-22/barclays-to-cut-5-000-jobs-as-ai-starts-creating-efficiency
  3. cityam.comhttps://www.cityam.com/barclays-profit-misses-after-investment-bank-comes-up-short/
  4. anthropic.comhttps://www.anthropic.com/news/barclays-scales-claude
  5. fortune.comhttps://fortune.com/2026/10/22/goldman-sachs-forecast-how-many-jobs-lost-to-ai-9-percent/

A análise da semana, por e-mail

Uma edição semanal com o que importa para quem decide. Sem anúncios, sem patrocínio.

Cancelamento em um clique, a qualquer momento.

Mercados →