Samsung entrega US$ 59 bi de lucro em um só trimestre com memória IA e projeta aperto até 2028

Divisão de chips faturou mais que a soma dos três últimos anos. Somando SK Hynix, o duopólio coreano cravou US$ 104 bi de lucro operacional em um trimestre e avisa que a oferta não fecha.
A Samsung Electronics reportou lucro operacional de 89,4 trilhões de wons, o equivalente a cerca de US$ 59 bilhões, no segundo trimestre de 2026, alta de 1.181% na comparação anual e o terceiro recorde trimestral consecutivo do grupo. A receita consolidada atingiu 171,5 trilhões de wons, salto de 130% em base anual e também um pico histórico. A leitura brutal do trimestre: em três meses, a Samsung ganhou mais dinheiro operacional do que somou nos três anos calendário de 2023, 2024 e 2025 combinados.
O motor da máquina fica claro na abertura por divisão. A Device Solutions, unidade que abriga a operação de memória e semicondutores, entregou 89,2 trilhões de wons de lucro operacional sobre 127,5 trilhões de receita, praticamente todo o resultado do grupo. A divisão de smartphones voltou a operar no vermelho no período, algo que a Samsung tratou como colateral aceitável diante da bonança do lado B2B do balanço. Se retirado o valor provisionado para bônus especial de performance na área de semicondutores, algo em torno de 10,5% do lucro daquela unidade, o lucro operacional teria beirado 100 trilhões de wons, marca inédita para qualquer trimestre da história da companhia.
SK Hynix confirma o duopólio
A leitura ganha peso quando somada ao resultado da SK Hynix, divulgado um dia antes. A rival coreana reportou receita de 79,3 trilhões e lucro operacional de 60,5 trilhões de wons no segundo trimestre, altas de 257% e 557% respectivamente, com margem operacional de 76%. Juntas, Samsung e SK Hynix cravaram 150 trilhões de wons, cerca de US$ 104 bilhões, de lucro operacional em um único trimestre, número que dá a dimensão do prêmio embolsado pelo duopólio coreano de memória diante do consumo de HBM4 e DDR5 pelas GPUs da Nvidia e pelos chips próprios da AWS e da Google.
A Samsung foi explícita ao dizer que a demanda de memória de servidor deve permanecer firme, sustentada pelo capex de infraestrutura de IA e pela chegada de sistemas agênticos que ampliam a pegada por rack. Mais grave para o comprador enterprise, o grupo avisou que a estreiteza de oferta se estende para dentro de 2027 e que um número crescente de clientes já negocia contratos de suprimento plurianuais para garantir capacidade. A Samsung chegou a projetar que o aperto de chips de memória deve durar até 2028, cenário que impacta preço de DIMM, tempo de entrega de servidores e planejamento de refresh em data centers privados e regionais.
Onde o efeito bate
A pressão de preço se propaga por três frentes conhecidas do CIO. Nos Estados Unidos, a AWS elevou o próprio capex de 2026 para US$ 220 bilhões e atribuiu parte da revisão à alta do preço de memória, o mesmo que o CFO da Meta usou para justificar o piso mais alto de gasto anunciado nesta semana, entre US$ 130 e US$ 145 bilhões. Na Alemanha, a SAP e provedores locais que operam nuvem soberana já vinham reportando pressão de margem em contratos de infraestrutura, tendência que tende a se intensificar. No Japão, MUFG e Mizuho renegociam com integradores como Fujitsu e NTT Data cronogramas de refresh de core bancário sensíveis a preço de memória. Na Índia, hubs de delivery da TCS e da Infosys que sustentam operações offshore de clientes globais convivem com equipamentos cotados em wons e dólares, uma equação que ficou menos favorável ao longo do trimestre.
O leitor cético tem argumentos válidos, e vale nomeá-los. Analistas do Morgan Stanley e do JPMorgan continuam apontando o risco de que a corrida por capacidade acabe repetindo, em escala maior, o ciclo boom-bust do fabricante Micron em 2018 e 2019, quando o excesso de oferta derrubou preços de DRAM em mais de 40% em doze meses. Um contra-argumento razoável é que hoje o gargalo é HBM, produto de altíssima especialização, e não DRAM comum, e que a curva de aprendizado de novos fornecedores para HBM4 é longa. Ainda assim, a lição do último ciclo pede leitura sóbria e não celebração linear.
A questão que fica sobre a mesa não é se o duopólio coreano lucra com IA. É por quanto tempo e a que preço para o comprador enterprise. Um consultor sênior de arquitetura, hoje, precisa refazer o TCO de projetos de modernização assumindo memória mais cara, prazos maiores de entrega e contratos plurianuais como norma, não exceção.