EUA lançam America.gov com Gemini e Grok sobre 29 mil sites
O governo Trump lançou o America.gov, portal de IA que responde a cidadãos a partir de cerca de 29 mil sites federais usando Gemini e Grok. O desenho contrasta com o GOV.UK Chat britânico e com os planos do gov.br.

O governo Trump colocou no ar nesta terça-feira (29) o America.gov, portal em que o cidadão faz uma pergunta em linguagem natural e recebe resposta montada a partir de cerca de 29 mil sites federais. A camada de IA usa dois modelos concorrentes, o Gemini, do Google, e o Grok, da xAI de Elon Musk.
Quem construiu e com quais regras
O projeto saiu do National Design Studio, a equipe de design e tecnologia da Casa Branca chefiada por Joe Gebbia, cofundador do Airbnb e primeiro Chief Design Officer do governo americano. Em janeiro, o mesmo estúdio anunciou a meta de reformular 27 mil sites federais e abriu contratações para a tarefa, segundo a Federal News Network e a Architect Magazine. O America.gov inverte a ordem: em vez de redesenhar site por site, põe um intermediário conversacional por cima de todos eles.
A política de privacidade do portal diz que os fornecedores de IA operam sob acordos de retenção zero de dados. Prompts e respostas não ficam guardados, e os parceiros estão proibidos por contrato de vender informações, montar perfis de publicidade ou treinar modelos com os dados dos usuários. Nem OpenAI nem Anthropic aparecem entre os fornecedores citados no lançamento.
De busca a transação
Por ora, o America.gov informa e encaminha. O governo diz que pretende ampliar a ferramenta para que o usuário comece ou conclua tarefas como renovar passaporte, se inscrever no Medicare, consultar dados de crédito estudantil e reservar áreas de camping federais. É esse segundo passo que muda o risco. Um chatbot que erra uma resposta gera uma reclamação; um agente que erra a inscrição no Medicare gera um problema jurídico, e o anúncio não detalhou quem responde nesse caso, nem se haverá revisão humana nas transações.
Para as integradoras que vivem de contratos federais de modernização de sites, a arquitetura importa mais que o chatbot. Se 29 mil sites passam a ser lidos por uma camada única de IA, o valor migra do front-end de cada agência para a qualidade e a estrutura do conteúdo que alimenta o modelo. Contratos de redesenho de portal perdem peso; contratos de governança de conteúdo e integração de sistemas legados ganham.
Três governos, três desenhos
O Reino Unido chegou antes por outro caminho. O Government Digital Service lançou oficialmente o GOV.UK Chat no aplicativo GOV.UK em maio de 2026, depois de um lançamento restrito em março, segundo o blog do GDS e a PublicTechnology. O modelo britânico é de um único serviço, construído pela equipe digital do próprio governo, com respostas limitadas ao conteúdo oficial e dados pessoais removidos das consultas. O americano terceiriza o motor para dois fornecedores privados e aposta em escala desde o primeiro dia.
No Brasil, o gov.br já opera um atendimento por chat com IA que transfere questões específicas para agentes especializados de cada área, e o governo federal fala em migrar de governo digital para "governo agêntico", com uma plataforma de infraestrutura de IA para o Executivo prevista no Plano Brasileiro de IA, segundo reportagem do Teletime de maio. A diferença de desenho é de soberania: o Brasil fala em infraestrutura própria para os modelos, os EUA escolheram contratar dois laboratórios comerciais.
Para CIOs e sócios de consultorias com clientes no setor público, a comparação entre os três desenhos é mais útil que a disputa entre modelos. Londres ganhou controle sobre conteúdo e risco ao manter o serviço em casa, ao custo de depender de uma equipe digital interna que levou mais de dois anos para chegar ao lançamento. Washington trocou esse controle por velocidade e por concorrência entre dois fornecedores, e passa a amarrar um serviço público a contratos com laboratórios que trocam de versão de modelo a cada poucos meses. Brasília fala em autonomia de infraestrutura, mas o plano ainda não virou operação em escala.
O teste que vem
O dado que o governo não divulgou no lançamento é a taxa de acerto. O governo cita os 29 mil sites como argumento de conveniência, mas o número também dimensiona o problema: páginas desatualizadas, regras conflitantes entre agências e conteúdo que nunca foi escrito para ser lido por máquina. O desempenho do America.gov vai depender menos da escolha entre Gemini e Grok e mais da faxina de conteúdo que o National Design Studio anunciou em janeiro, e que agora deixou de ser projeto de design para virar pré-requisito de atendimento.
Fontes
- cnbc.comhttps://www.cnbc.com/2026/09/29/trump-ai-gemini-grok.html
- theregister.comhttps://www.theregister.com/public-sector/2026/09/29/trump-launches-americagov-with-ai-chatbots-at-its-core/5299907
- fedscoop.comhttps://fedscoop.com/trump-launches-ai-site-america-gov/
- america.govhttps://america.gov/privacy-policy
- federalnewsnetwork.comhttps://federalnewsnetwork.com/it-modernization/2026/01/national-design-studio-looks-to-overhaul-27000-federal-websites-and-is-hiring-a-team-to-do-it/
- gds.blog.gov.ukhttps://gds.blog.gov.uk/2026/05/14/gov-uk-chat-launches/
- teletime.com.brhttps://teletime.com.br/29/05/2026/governo-federal-avanca-no-uso-de-ia-e-planeja-plataforma-agentica/