IA come o rodapé dos escritórios de advocacia antes de tocar no partner: por que a pirâmide da BigLaw está afundando

K&L Gates cortou 10% do staff não-jurídico em julho, na mesma semana em que Kirkland acelerou US$ 500 milhões em IA proprietária. O trabalho jurídico não vai desaparecer, mas o modelo de contas de padaria de novos associados sim.
A K&L Gates confirmou em julho o corte de aproximadamente 10% do quadro não jurídico, cerca de 130 a 170 pessoas em uma folha global de mais de 3 mil profissionais, depois de uma revisão de meses da estrutura de suporte. O comunicado, feito pelo porta-voz Steven Eliopoulos, foi cirúrgico: nenhum dos advogados foi afetado, todos os cortes recaíram sobre "allied professionals", da entrada operacional a gerentes seniores. Foi o corte mais recente numa linha de decisões que começou em 2025 e que hoje forma um padrão claro no topo do setor: a IA come primeiro o rodapé do escritório antes de tocar em qualquer folha de sócio.
O nome que costuma faltar nessa conversa é o de quem já tinha começado a soltar caixa antes. Kirkland & Ellis, a firma de maior faturamento do mundo, anunciou em maio de 2026, pela boca do chair Jon Ballis, aporte de US$ 500 milhões em IA proprietária ao longo de quatro anos, com US$ 100 milhões só em 2026. A firma envolveu cerca de 250 advogados no desenho da plataforma e mais de 180 profissionais de tecnologia no desenvolvimento. Não é o único investimento pesado. Baker McKenzie tinha aberto o ciclo em fevereiro deste ano, quando anunciou o corte de 600 a 1.000 funções de business services, o maior enxugamento explicitamente atribuído a IA na história da advocacia. Antes disso, em novembro de 2025, o Clifford Chance cortou 10% do staff de negócios no Reino Unido, e em setembro Freshfields fechou parte do hub de paralegais em Manchester.
O que o número esconde
A leitura fácil é que a IA está enxugando o suporte. A leitura correta é mais precisa: a IA está eliminando primeiro o degrau que existia entre o cliente e o advogado sênior. Um estudo da McKinsey citado pelo relatório 2026 do 8am Legal Industry estima que 69% das tarefas típicas de paralegal podem ser automatizadas com tecnologia hoje disponível, e a contratação de paralegais nas 250 maiores firmas americanas caiu 26% desde 2018. O trabalho de primeiro passe em documento, o tal "first-year work" que sustentou a pirâmide da BigLaw por três décadas, é justamente o tipo de tarefa em que os modelos são bons e ficam melhores a cada release. O emprego jurídico geral nos Estados Unidos ainda está em máxima histórica, com 1,208 milhão de postos em dezembro de 2025 segundo o BLS. O que muda é a forma da pirâmide, não o tamanho dela.
Há vozes que puxam o freio. Fried Frank, questionada em julho sobre suposto corte de vagas por conta de IA, negou publicamente. Recrutadores ouvidos pelo Law.com e pelo ABA Journal têm repetido que IA sozinha não explica todos os cortes recentes, e que parte das firmas está usando a narrativa da tecnologia para justificar ajustes de custo que já eram inevitáveis por conta de queda em mandatos de M&A e de finance no ciclo de juros alto. É a mesma crítica válida sobre demissões na consultoria e no banco de investimento: a IA acelera decisões que a economia já tornou possíveis. Aceitar essa ponderação não anula o padrão setorial; ajusta o peso da causa.
Como a onda chega em duas geografias além dos EUA
No Reino Unido, o padrão foi mais rápido. Clifford Chance e Freshfields cortaram antes das americanas e por razões parecidas, com contas mais duras por causa de custo de escritório em Londres e ciclo fraco em capital markets. Allen & Overy Shearman, agora fundida, tem pressionado a base de paralegais nas contas de finance e o efeito derrama sobre o hub de Belfast, que absorve muito trabalho de commodity. A ida do ex-VP de Parcerias da Harvey, Suril Patel, para a Kirkland em julho, com passagem anterior por Allen & Overy, mostra o quanto o mercado de talento em IA jurídica trafega entre Wall Street e a City.
Na Índia, o efeito é indireto e vale mais dinheiro. Os captive alternative delivery centers da BigLaw americana em Gurgaon, Bangalore e Hyderabad, que emplacaram nos últimos dez anos como opção mais barata que outsourcing tradicional, são os pontos de exposição maior. Se a IA absorve documento, contrato repetido e diligência básica, o pipeline que sustenta esses hubs seca por dentro. É a mesma leitura que já apareceu nos Acceleration Centers das Big 4 e nos hubs indianos das TCS e Infosys.
O desenho da BigLaw dos próximos cinco anos vai depender menos da tecnologia e mais da coragem dos partners em desmontar o próprio modelo de contas. A pergunta que sobra é se algum sócio majoritário vai aceitar comissão menor por hora faturada quando a hora custar bem menos para produzir. Enquanto essa conversa não acontecer no comitê executivo, cada anúncio novo de corte vai cair primeiro sobre quem não assina a folha de rateio.