Estratégia5 minRedação

Seguradoras cortam vagas, mas a IA explica só parte da conta

Legal & General anunciou 1.000 cortes sem citar IA. Da Allianz Partners à Helvetia Baloise, o setor mistura automação, fusões e margem, e a comparação que importa é qual camada de trabalho encolhe.

Praça Pariser Platz em Berlim com pedestres e um ciclista de dia.

A Legal & General vai cortar cerca de 1.000 vagas até meados de 2027, perto de 10% do quadro, segundo e-mail enviado pelo CEO António Simões aos funcionários na quarta-feira (23). A seguradora e gestora britânica começa por um programa de desligamento voluntário no Reino Unido, não descarta demissões compulsórias e poupa a divisão de gestão de ativos. A justificativa de Simões foi estrutural: a empresa precisa ficar mais enxuta depois de uma década em que se tornou complexa demais. Inteligência artificial não aparece no argumento.

Depois de consultorias e bancos, esta série chega às seguradoras, e o setor mostra melhor do que os outros dois o risco de atribuir à IA tudo o que é corte de pessoal.

Três cortes, três motivos

Na Alemanha, a Allianz Partners, braço de assistência e seguro-viagem da Allianz, planeja eliminar entre 1.500 e 1.800 postos em 12 a 18 meses, sobretudo em centrais de atendimento na Alemanha, França, Espanha e Reino Unido, segundo reportagens da Süddeutsche Zeitung confirmadas pela Reuters em novembro de 2025. É cerca de 8% de uma unidade de 22.600 pessoas, das quais cerca de 14.000 atendem clientes e sinistros por telefone. Aqui a IA é o motivo declarado: sistemas automatizados assumem o atendimento de rotina.

Na Suíça, a Helvetia Baloise, nascida da fusão fechada em dezembro de 2025, prevê cortar de 2.000 a 2.600 vagas até 2028, sendo 1.400 a 1.800 no país e 260 a 330 na Alemanha, em busca de 350 milhões de francos suíços de economia anual. O motor é a fusão.

No Reino Unido, a Legal & General corta por simplificação: já vendeu a construtora Cala e fundiu suas unidades de gestão de ativos. Três empresas, três causas, e só uma delas cabe inteira na tese de que a IA está substituindo o trabalho de escritório.

O argumento contrário, na sua melhor forma

Nos Estados Unidos, os dados de emprego do BLS mostram queda no setor de seguros em agosto, puxada pelas próprias seguradoras. Julie Hill, reitora da faculdade de direito da Universidade de Wyoming, citada pela Insurance Business, não credita a queda principalmente à IA: para ela, boa parte das perdas vem da pressão sobre margens, e folha de pagamento é a primeira despesa cortada quando os lucros apertam.

O argumento é sério, mas a cronologia o enfraquece. O Fed levou os juros de perto de zero em 2022 a 5,33% em meados de 2023 e os manteve ali durante quase todo 2024, período em que o emprego em finanças e seguros cresceu. Os cortes começaram em setembro de 2024, e foi justamente nessa fase de alívio que as perdas de emprego se aceleraram, segundo a mesma publicação. Margem explica o início do ciclo; explica mal o momento atual.

O entusiasmo com a IA também erra. O Evident AI Index para seguros, que acompanha 30 das maiores seguradoras da América do Norte e da Europa, registrou alta de 32% em um ano nas funções de especialista em IA, que hoje representam quase um em cada 50 funcionários, enquanto a força de trabalho total dessas empresas encolheu 2,2%. É uma troca de perfil, não um colapso: as seguradoras contratam quem constrói e supervisiona sistemas e deixam de repor quem processava volume.

A distinção que o debate ignora

A pergunta útil não é quantos empregos a IA elimina, e sim qual camada de trabalho encolhe. Onde a IA é causa declarada, como na Allianz Partners, o corte cai sobre atendimento telefônico e processamento de sinistros de rotina, trabalho de alto volume e baixa variação. Onde a causa é fusão ou complexidade, como na Helvetia Baloise e na Legal & General, o corte cai sobre sedes, funções duplicadas e camadas de gestão. Os dois movimentos aparecem somados na mesma estatística de emprego, e somá-los produz uma conclusão que nenhum deles sustenta sozinho.

A geografia segue a mesma lógica. A Allianz Partners corta em quatro países europeus ao mesmo tempo porque o atendimento é um processo padronizado, replicável em qualquer central. A Helvetia Baloise concentra cortes na Suíça porque é lá que estão as duas sedes que se fundiram. Para prestadores de serviços que operam centrais de atendimento e back office para seguradoras, a partir de centros de nearshore e offshore, o primeiro padrão é o que chega primeiro ao contrato, porque é o trabalho que a própria seguradora já tinha terceirizado por ser repetitivo.

Onde olhar a seguir

O próximo número relevante sai dos próprios balanços. Seguradoras que atribuírem ganhos de índice combinado à automação de sinistros, e não a reajuste de prêmio, estarão dizendo algo que um anúncio de corte não diz: se a IA está reduzindo custo por apólice ou apenas servindo de justificativa para uma reestruturação que viria de qualquer forma.

Fontes

  1. itv.comhttps://www.itv.com/news/2026-09-23/legal-and-general-job-cuts-to-affect-10-of-firms-workforce
  2. investing.comhttps://www.investing.com/news/stock-market-news/legal--general-to-cut-1000-jobs-by-mid2027-93CH-4912522
  3. thenextweb.comhttps://thenextweb.com/news/allianz-1800-job-cuts-ai
  4. swissinfo.chhttps://www.swissinfo.ch/eng/workplace/helvetia-baloise-to-cut-up-to-2600-jobs-in-three-years/90610187
  5. insurancebusinessmag.comhttps://www.insurancebusinessmag.com/us/news/breaking-news/insurance-keeps-losing-jobs--ai-is-only-part-of-the-story-589149.aspx
  6. evidentinsights.comhttps://evidentinsights.com/insights/insurance-ai-index-2026-report

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