Mercados5 minRedação

Capgemini eleva meta, Cognizant corta e Fujitsu cai 16% na bolsa

Em 48 horas, três gigantes de serviços de TI mostraram leituras opostas do mesmo mercado: aquisições sustentam a Capgemini, gasto discricionário esfria na Cognizant e projetos deficitários derrubam a Fujitsu.

Cruzamento de Kabukicho em Shinjuku, Tóquio, com pedestres e táxis em plena tarde.

Três das maiores prestadoras de serviços de TI do mundo divulgaram números em menos de 48 horas, e cada uma contou uma história diferente sobre o mesmo mercado. A Capgemini elevou nesta sexta-feira (30) suas metas para 2026, depois de faturar 6,073 bilhões de euros no terceiro trimestre, alta de 11,7% a câmbio constante. A Cognizant estreitou na quinta-feira (29) sua projeção de crescimento para 4,0% a 4,4%, ante 4,0% a 5,5% antes. E as ações da Fujitsu caíram 16,2% em Tóquio nesta sexta, até o limite diário de baixa, após um semestre abaixo do esperado.

Capgemini: crescimento com aquisição dentro

Segundo o comunicado da Capgemini, a receita da América do Norte subiu 18,3% a câmbio constante no trimestre, e Aiman Ezzat, CEO do grupo, descreveu forte ritmo na região e no Reino Unido e uma "clara aceleração" na França.

O número precisa de contexto. Boa parte da expansão vem da WNS, operadora indiana de processos de negócio comprada pela Capgemini e consolidada desde o quarto trimestre de 2025, além da Cloud4C. O crescimento orgânico é menor que os 11,7% da manchete. E as reservas de novos contratos, de 5,401 bilhões de euros, subiram só 3,4%, ritmo bem inferior ao da receita. Para Ezzat, o crescimento subjacente ficou próximo do registrado no segundo trimestre e acima da média do setor.

Cognizant: margem sobe, demanda discricionária esfria

A Cognizant faturou US$ 5,7 bilhões no trimestre, alta de 4,6%, com margem operacional ajustada de 16,3%. A empresa cortou o topo da projeção de receita para 2026 e fixou lucro por ação ajustado entre US$ 5,72 e US$ 5,79. A direção atribuiu o ajuste à incerteza macroeconômica, que pesa sobre gastos discricionários, sobretudo em saúde e em setores voltados ao consumidor. As ações caíram após a divulgação.

As reservas acumuladas em 12 meses somaram US$ 28,7 bilhões, alta de 4%, com relação entre contratos novos e receita de cerca de 1,3 vez. Ravi Kumar, CEO da Cognizant, disse que mais de 50% do código produzido pela empresa já é assistido por IA. O dado é central para o modelo: quando metade do código sai com ajuda de máquina, a receita por projeto pode cair mesmo com o mesmo número de contratos.

Fujitsu: o custo dos projetos que dão prejuízo

No caso japonês, o problema foi execução. A Fujitsu atribuiu o resultado fraco do semestre ao surgimento de projetos deficitários, à menor utilização de engenheiros em um trimestre com menos dias úteis e à alta no custo de chips de memória, que comprimiu a margem de hardware. A empresa manteve a projeção anual, o que exige um segundo semestre bem mais forte. O mercado não comprou: queda de 16,2% em um único pregão.

A leitura que o debate costuma errar

A tentação é tratar os três números como um placar sobre IA, com a Capgemini vencendo e a Fujitsu perdendo. O eixo está errado. A Capgemini cresce em boa parte por ter comprado escala em operações de negócio na Índia, onde a IA agêntica reduz custo de processo e o cliente paga pelo resultado. A Cognizant depende mais de projetos discricionários de engenharia, a categoria que o cliente adia primeiro quando o ambiente piora. A Fujitsu sofre com contratos de preço fechado no Japão, onde um projeto mal estimado vira prejuízo direto.

O argumento contrário merece registro. A Cognizant sustenta que a IA amplia a demanda ao abrir projetos novos, e lançou no trimestre a plataforma AI Nexus para governar custo e qualidade de agentes nos clientes. A reserva de 1,3 vez a receita da Cognizant sustenta parte dessa tese. O risco oposto é o de quem enxerga só canibalização: a margem ajustada de 16,3% da Cognizant, 0,3 ponto acima de um ano antes, mostra que a automação também protege rentabilidade.

Onde isso aterrissa

Na Índia, o efeito é direto. A Cognizant mantém no país a maior parte de sua força de trabalho, e a WNS acrescentou à Capgemini dezenas de milhares de profissionais de operações em cidades como Mumbai e Pune. Uma reserva de contratos crescendo 3,4% contra receita a 11,7% indica que a contratação nesses centros tende a seguir o volume já assinado, não uma nova expansão.

No Japão, a queda da Fujitsu reabre a discussão sobre contratos de preço fechado em sistemas legados de governo e de bancos, modelo que as integradoras japonesas usam há décadas.

No Brasil, onde Capgemini e Cognizant atendem bancos e seguradoras, o efeito chega via preço. Com metade do código assistido por IA, clientes financeiros brasileiros e europeus passam a pedir que o ganho de produtividade apareça na tarifa por entrega, e não só na margem do fornecedor. A próxima rodada de renegociação de contratos de serviços de TI vai medir exatamente essa divisão.

Fontes

  1. globenewswire.comhttps://www.globenewswire.com/news-release/2026/10/30/3392023/0/en/q3-2026-momentum-drives-upgrade-in-capgemini-s-2026-outlook.html
  2. investors.cognizant.comhttps://investors.cognizant.com/news-and-events/news/news-details/2026/Cognizant-Reports-Third-Quarter-2026-Results/default.aspx
  3. seekingalpha.comhttps://seekingalpha.com/news/4660555-cognizant-forecasts-5_72-5_79-eps-while-targeting-16_1-percent-margin-amid-softer
  4. investing.comhttps://www.investing.com/news/stock-market-news/fujitsu-shares-slump-16-on-weak-firsthalf-earnings-4985780
  5. investing.comhttps://www.investing.com/news/company-news/fujitsu-1h-fy2026-slides-service-gains-offset-by-hardware-pressure-93CH-4984605

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