Em 2 de agosto, a UE passa a multar empresas de IA em até 3% do faturamento global; California entra na mesma data

O período de adaptação de 12 meses para provedores de IA de propósito geral termina em 2 de agosto de 2026. A partir desta data, o Escritório de IA da UE pode impor multas de até 3% do faturamento global a modelos como os da OpenAI, Meta e Google DeepMind.
As obrigações do Regulamento de Inteligência Artificial da União Europeia para modelos de propósito geral estiveram em vigor desde 2 de agosto de 2025. O que muda neste sábado é o fim do período de adaptação de 12 meses. A partir de 2 de agosto de 2026, o Escritório de IA da UE pode exercer formalmente seus poderes de supervisão e enforcement: solicitar documentação técnica, conduzir avaliações de modelos, exigir medidas de conformidade e impor multas de até 15 milhões de euros ou 3% do faturamento anual global, o que for maior.
OpenAI, Anthropic, Google DeepMind, Microsoft, IBM e Mistral AI estão entre as 26 organizações que assinaram o Código de Conduta GPAI, o que lhes garante um caminho simplificado de conformidade. A Meta, única grande empresa ocidental de IA que recusou assinar o código em julho de 2025, alegando que ele introduz incertezas legais e ultrapassa os limites estabelecidos pelo próprio Regulamento de IA, permanece no regime padrão de enforcement, sem os benefícios que o código faculta a signatários.
Além das obrigações GPAI, o Artigo 50 do regulamento entra em vigor na mesma data. Novos sistemas de IA que interagem diretamente com usuários precisam informar isso em linguagem acessível. Conteúdo sintético e deepfakes devem ser rotulados como tal. Sistemas de reconhecimento de emoções e categorização biométrica têm deveres de divulgação específicos. Sistemas já no mercado antes de 2 de agosto dispõem até 2 de dezembro de 2026 para se adaptar.
O que o Omnibus Digital mudou em julho
Em 8 de julho de 2026, a Comissão Europeia assinou o Omnibus Digital, pacote regulatório que postergou os prazos para sistemas de IA de alto risco. Sistemas autônomos listados no Anexo III do regulamento têm agora até 2 de dezembro de 2027 para se adequar; sistemas de IA embutidos em produtos regulados pelo Anexo I dispõem até 2 de agosto de 2028. O adiamento foi resposta direta à pressão da indústria sobre a impraticabilidade dos prazos originais para sistemas em saúde, transporte e infraestrutura crítica.
O que o Omnibus não tocou: o enforcement para modelos de propósito geral e o conjunto de obrigações de transparência do Artigo 50. Para esses dois blocos, o prazo de amanhã chegou sem prorrogação.
California entrou na mesma data, e isso não é coincidência
A Lei de Transparência em IA da California, AB 853, também se torna operacional em 2 de agosto de 2026. O prazo original do AB 853 era 1º de janeiro de 2026; a prorrogação foi explicitamente justificada para alinhar a lei californiana com a data europeia. A lei exige que plataformas de IA com mais de 1 milhão de usuários mensais disponibilizem ferramenta gratuita de detecção de conteúdo gerado por IA e incorporem metadados de identificação em imagens, vídeos e áudio sintéticos, com obrigações de transparência repassadas também a licenciados terceiros.
O efeito combinado de 2 de agosto é a criação de um padrão de transparência de fato global. Qualquer provedor de IA com audiência na União Europeia e na California, categoria que engloba praticamente todo modelo de linguagem relevante no mercado atual, precisa cumprir obrigações materialmente equivalentes no mesmo dia, nas duas jurisdições.
Dois regimes, uma pressão concentrada sobre a Meta
Na Europa, o primeiro teste prático do Escritório de IA será a definição de prioridades. Sem denúncia formal ou incidente documentado, é improvável que o Escritório abra processo ex officio em sua primeira semana de enforcement efetivo: o esperado são pedidos de documentação técnica a provedores de modelos, não multas imediatas.
Nos Estados Unidos, o caminho californiano é diferente. A AB 853 não criou um órgão especializado: o enforcement depende do Procurador-Geral do estado, o que tende a gerar ações mais reativas e voltadas a incidentes de repercussão pública do que à supervisão técnica rotineira.
A Meta concentra os dois problemas ao mesmo tempo. Ao recusar o Código GPAI europeu, abriu mão do caminho simplificado de conformidade justo no momento em que o enforcement começa. Seus produtos de geração de imagem e os modelos Llama, que contam com distribuição global e dezenas de milhões de usuários mensais, enquadram-se nas obrigações de transparência de ambas as jurisdições. A combinação de enforcement europeu sem o benefício do código voluntário e a lei californiana em vigor simultânea não afeta nenhum outro grande provedor ocidental de IA na mesma medida.