AWS acelera para +37% e ganho contábil da Anthropic infla lucro da Amazon em US$ 53 bi no 2T26

Receita da AWS chegou a US$ 42,2 bi no ritmo mais rápido em cinco anos. Andy Jassy elevou o capex de 2026 para US$ 220 bi e admitiu que ainda não bastará para atender a demanda.
A Amazon fechou o segundo trimestre com receita de US$ 200,6 bilhões, alta de 20% na comparação anual, e resultado que embaralha a leitura de qualquer investidor apressado. O lucro líquido de US$ 62,6 bilhões inclui um ganho não operacional pré-tributos de US$ 53,4 bilhões, quase todo ele proveniente da reavaliação a mercado da fatia detida na Anthropic. É dinheiro contábil, não caixa, algo que Andy Jassy, CEO da Amazon, precisou repetir na teleconferência para conter interpretações fáceis sobre a operação.
O número que importa para o CIO é outro. A Amazon Web Services entregou US$ 42,2 bilhões em receita no trimestre, alta de 36,7% em base anual e o ritmo mais rápido em cerca de cinco anos, superando os US$ 40,5 bilhões esperados pelo consenso. A margem operacional da divisão subiu para 39,4%, contra pouco menos de 33% um ano antes, e o lucro operacional da AWS pulou de US$ 10,2 bi para US$ 16,6 bi. Em termos anualizados, a AWS agora opera acima de US$ 169 bilhões de receita, com dois blocos de negócios de IA e chips já rodando cada um em run rate superior a US$ 25 bilhões e crescimento de três dígitos, segundo os próprios executivos.
O gargalo é físico, não comercial
Jassy foi direto ao apontar a restrição: a Amazon vai gastar US$ 220 bilhões em capex neste ano, revisão para cima em relação aos US$ 200 bilhões antes indicados, e mesmo assim não terá capacidade suficiente para atender toda a demanda de 2026. "E acredito que essa dinâmica também será verdadeira em 2027", disse o executivo. A empresa citou a alta do preço de memória e a aceleração de contratações plurianuais e multi-gigawatt firmadas com Anthropic e OpenAI como principais drivers do movimento.
O guidance de receita para o terceiro trimestre foi de US$ 197 bilhões a US$ 202 bilhões, com crescimento de 9% a 12% na comparação anual, abaixo dos US$ 204 bilhões que analistas esperavam. O sinal misto reflete, em parte, o efeito do Prime Day deste ano ter caído dentro do segundo trimestre, mas também reforça que a AWS está deixando pedidos na fila, não conseguindo faturá-los ainda.
O impacto para consultorias e integradores globais
Para clientes e parceiros da AWS, a mensagem é dupla e desconfortável. De um lado, a garantia de que o hyperscaler continuará canalizando bilhões em infraestrutura para IA generativa. De outro, o risco concreto de racionamento de capacidade em regiões específicas. TCS, Infosys, Accenture, Capgemini e Cognizant, entre outras, apostaram forte em práticas dedicadas à pilha AWS ao longo do último ciclo, e a disputa por slots em regiões como us-east-1, eu-west-1 e ap-southeast-1 se intensifica quando o próprio Jassy afirma que a oferta não fecha. Na Índia, hubs de delivery em Bengaluru e Hyderabad concentram parte da demanda de projetos Bedrock e Trainium para clientes americanos, o que pressiona escolhas de região. No Brasil, integradores que rodam workloads em sa-east-1 já convivem com quotas de instâncias P5 mais rígidas e custos de rede mais altos quando precisam sair do país.
A fatia da Anthropic funciona como sinal duplo. A Amazon investiu, ao todo, cerca de US$ 13 bilhões na startup, com espaço para até US$ 20 bilhões adicionais. O ganho contábil de US$ 53,4 bilhões nada mais é do que a reavaliação a mercado desse ativo dentro do balanço, sem cash gerado. Para o CFO, é um lembrete de que parte importante do EPS reportado da Amazon deixou de ser função apenas de e-commerce e cloud e passou a depender do humor com que investidores privados precificam laboratórios de IA. Para o CIO cliente, é um sinal de que a Amazon tem incentivo estrutural para manter Claude como oferta central dentro do Bedrock, mesmo quando integrar Gemini ou Llama faria sentido para a stack do cliente.
O que observar até o fim de 2026
Três pontos merecem prioridade na leitura do CIO. Primeiro, o hiato entre o crescimento da AWS e o do Azure, que subiu 43% em constant currency no encerramento do ano fiscal e ultrapassou US$ 100 bilhões anualizados pela primeira vez, mostra que a corrida por workloads de IA ainda pende para a Microsoft, ainda que a Amazon esteja fechando o gap. Segundo, o pico de capex de US$ 220 bilhões, acima dos US$ 130 a US$ 145 bilhões guiados pela Meta na véspera, adiciona pressão sobre o fluxo de caixa livre do grupo, algo que já apareceu no resultado da Meta, cujo FCF trimestral caiu 91% em base anual. Terceiro, o vínculo cada vez mais estreito entre Amazon e Anthropic amarra o destino do balanço a um laboratório concorrente direto do Google e da OpenAI, cenário que exigirá clareza contratual para clientes multivendor.