AWS cresce 39%, mas gasto com IA derruba ações da Amazon
A nuvem da Amazon teve o maior ritmo em quase cinco anos e soma US$ 578 bilhões em contratos, mas o lucro abaixo do esperado e o capex de US$ 220 bilhões pesaram nas ações.

A Amazon Web Services faturou cerca de US$ 46 bilhões no terceiro trimestre de 2026, alta de 39% sobre o mesmo período de 2025, segundo o balanço divulgado pela Amazon na quinta-feira (29). É o ritmo mais rápido da unidade de nuvem em quase cinco anos. Mesmo assim, as ações da Amazon chegaram a cair cerca de 7% nas negociações após o fechamento.
A explicação está fora da AWS. O lucro por ação consolidado foi de US$ 1,89, contra US$ 1,97 esperados pelo consenso de analistas, e a receita total de US$ 201,9 bilhões, alta de 12%, ficou ligeiramente abaixo das projeções. A margem operacional do grupo, de 13,9%, foi a maior da história da companhia, o que diz bastante sobre o humor do mercado: um recorde de rentabilidade não bastou para compensar a conta de investimento.
A carteira que justifica o gasto
Andy Jassy, CEO da Amazon, disse aos analistas que a carteira de contratos da AWS chegou a US$ 578 bilhões, com crescimento de três dígitos na comparação anual. A unidade opera agora a uma receita anualizada de US$ 184 bilhões. Jassy foi além do trimestre e afirmou que a AWS pode crescer mais de 40% tanto em 2027 quanto em 2028, uma projeção rara para um negócio desse porte.
A outra metade da teleconferência foi sobre dinheiro saindo. A Amazon manteve a previsão de investimento de capital de aproximadamente US$ 220 bilhões em 2026, concentrado em AWS e infraestrutura de IA, e Jassy avisou que o valor de 2027 será "significativamente maior". O fluxo de caixa livre acumulado em 12 meses passou ao terreno negativo, segundo o comunicado da empresa, revertendo a geração positiva de um ano antes.
Duas leituras do mesmo número
Para quem defende a tese, a conta fecha: uma carteira de US$ 578 bilhões é receita contratada, não demanda imaginada, e uma unidade que cresce 39% com margem operacional de dois dígitos altos financia o próprio capex. Essa é a distinção que o debate sobre bolha de IA costuma ignorar. A Amazon não é um laboratório queimando capital de risco: é uma empresa com margem operacional recorde de 13,9% escolhendo onde reinvestir.
O argumento contrário também tem números. Um investimento anual de US$ 220 bilhões, que deve subir em 2027, supera em muito qualquer lucro trimestral da companhia, e o caixa livre negativo mostra que, por ora, a nuvem não financia sozinha a expansão. Contratos plurianuais também podem ser renegociados se a economia dos clientes de IA mudar. A pergunta relevante para o investidor não é se a AWS cresce, e sim em que ano o capex deixa de crescer mais rápido que a receita.
Há também um ruído contábil que enfraquece a leitura negativa do varejo. A Amazon realizou o Prime Day no segundo trimestre na maioria dos grandes países em 2026, enquanto em 2025 o evento caiu inteiro no terceiro trimestre. Parte da frustração com a receita consolidada é, portanto, calendário.
Onde o efeito chega
Nos Estados Unidos, onde estão os maiores clientes corporativos, o crescimento de 39% indica que a escassez de capacidade continua sendo o limite, não a demanda. Para um CIO, isso significa negociar reserva de capacidade e preço de GPU e de chips próprios da AWS com mais antecedência, porque a fila está nos US$ 578 bilhões já contratados.
Na Índia, o efeito passa pelas integradoras. TCS, Infosys, Cognizant e Accenture concentram no país boa parte das equipes que executam migrações e projetos de IA sobre a AWS. Uma unidade que promete crescer mais de 40% ao ano até 2028 sustenta demanda por esses times, mas a própria AWS empurra ferramentas de automação de código que reduzem as horas de engenharia por projeto. O ganho de volume e a perda de horas faturáveis chegam ao mesmo tempo.
No Brasil, a região de São Paulo opera desde 2011 e atende bancos, varejistas e o setor público. Ali, a leitura é de custo: com investimento global de US$ 220 bilhões concentrado em capacidade de IA nos Estados Unidos, clientes brasileiros que precisam manter dados no país disputam um volume menor de capacidade local de aceleradores, e o preço tende a refletir isso.
Na Alemanha, onde a AWS montou sua nuvem soberana europeia em Brandemburgo, a pressão é regulatória. Clientes do setor público e financeiro europeu exigem processamento dentro da União Europeia, o que obriga a Amazon a duplicar parte do investimento em vez de concentrá-lo nos grandes campi americanos.
O ponto comum aos três mercados é que a meta de crescer mais de 40% em 2027 e 2028 virou o parâmetro pelo qual o capex será julgado. Jassy fixou publicamente a régua; nos próximos balanços, o mercado vai cobrar a AWS por ela, e não pelo recorde de 39% deste trimestre.
Fontes
- geekwire.comhttps://www.geekwire.com/2026/aws-growth-hits-39-its-fastest-in-nearly-five-years-as-amazon-misses-on-earnings/
- forbes.comhttps://www.forbes.com/sites/fionariley/2026/10/29/amazon-falls-short-of-overall-revenue-prediction-despite-aws-revenue-growth-nearing-40/
- techcrunch.comhttps://techcrunch.com/2026/10/29/aws-will-be-a-1t-business-jassy-says-but-first-it-will-spend-big
- fool.comhttps://www.fool.com/investing/2026/10/29/aws-jumps-39-as-amazons-cash-flow-sinks-rapid-earn/
- sec.govhttps://www.sec.gov/Archives/edgar/data/0001018724/000101872426000038/amzn-20260930xex991.htm